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quarta-feira, 13 de junho de 2012

V Tábua de Leituras: numa Biblioteca feita de sorrisos

Biblioteca Municipal João Brandão
Teve lugar na semana passada a 5ª. edição da Tábua de Leituras, um Encontro anual onde de há cinco anos a esta parte se reúnem diversos especialistas em leitura, literatura, livros e bibliotecas. Como em outros encontros similares, esta iniciativa é dirigida a adultos, crianças e jovens do concelho, muito embora seja aberta à participação de técnicos de concelhos próximos. Do mesmo modo que em outros encontros, a reflexão e o debate teóricos seguem de par com oficinas que oferecem formação variada, trocam-se ideias, discutem-se projectos e vivem-se momentos de pura fruição da literária, muita poesia e contos...

Programa
Aquilo que torna as Tábuas de Leitura um encontro diferente de outros é o facto de ser também uma mostra do trabalho anual realizado por uma equipa extraordinária!! Constituída por cerca de 12 técnicos de biblioteca e de outros tantos voluntários que se afirmam, sorridentemente, todos muito felizes com o seu trabalho, este grupo congrega diferentes especializações: um informático, uma designer, uma actriz, uma técnica de promoção de saúde, uma animadora cultural... E, se é verdade que todos eles foram com certeza escolhidos pelo seu dinamismo e espírito de iniciativa, todos eles foram também incentivados a apostarem nas respectivas áreas de especialização e a todos foi oferecida formação complementar sobre promoção da leitura.

Sorrisos de parte da equipa e amigos
Como não existe uma excelente equipa sem um excelente líder, é a Ana Paula Neves que se deve a responsabilidade por todo o trabalho de concepção e consolidação deste projecto. Com um profundo conhecimento da sua comunidade, uma inequívoca vocação para a leitura pública e uma vontade de ir sempre mais longe, Ana Paula Neves conduz este processo há cerca de quinze anos, antes mesmo de a Biblioteca existir. 

Ana Paula Neves

Assim se compreende que a Biblioteca venha conquistando a adesão da comunidade e o reconhecimento público de todos os que a conhecem, tendo inclusivamente sido distinguida, em 2010, com um apoio financeiro da Fundação Gulbenkian, no valor de 30 000 €, para um projecto bienal de promoção da leitura. Ao assentar numa verdadeira partilha de conhecimentos, competências e ideias, o trabalho da Biblioteca viu alargarem-se as fronteiras da intervenção na comunidade, muito para além das suas centenárias paredes de granito...

Luísa Ducla Soares, a autora de eleição da V Tábua de Leituras
Luísa Ducla Soares, a autora convidada deste ano, dizia-nos: Nunca estive numa biblioteca onde todos me dissessem: aqui somos muito felizes... O que, não podemos deixar de sublinhar, é em si mesma uma afirmação extraordinária! Surpreendida e encantada com uma exposição lindíssima, original e sensível sobre a sua obra (da autoria da designer Fátima Pais cujo trabalho convido todas as Bibliotecas a conhecer com carácter de urgência), Luísa Ducla Soares foi presenteada com dezenas de minúsculos livros de cordel sobre os seus livros, da autoria de parte das crianças que visitaram esta exposição.

121 títulos publicados, muito mais do que um por quase todas as letras do alfabeto.
Montagem dos livros de cordel, exemplares únicos oferecidos à autora.

O vampiro (o próprio!) que só gostava de groselha, uma das histórias mais actuais de Luísa Ducla Soares.
Todos os presentes com quem falámos foram unânimes em salientar o cuidado colocado nos mais pequenos pormenores da organização das Tábuas de Leitura, na hospitalidade e no carinho com que todos são recebidos, nas aprendizagens aí realizadas, na troca de informação e de ideias, no incentivo à dinamização de outros projectos, na vontade manifesta de voltar para o ano... outra vez.

Obrigada, Biblioteca Municipal João Brandão!
PS: Mais fotografias deste Encontro aqui!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

«Abraçar o mundo sem deixar ninguém de fora»: serviços de extensão bibliotecária e cultural das Bibliotecas Públicas portuguesas: as BIBLIOTECAS CAIXA *



Os serviços de extensão bibliotecária e cultural das Bibliotecas Públicas radicam na respectiva vocação universal − oferecer a todos toda a informação disponível − que é simultaneamente a característica identitária e a imagem de marca da Bibliotecas Públicas. Com efeito, mais do que qualquer outro equipamento cultural, a Biblioteca Pública − ao assumir-se como ponto de convergência entre o indivíduo e a comunidade, o passado e o futuro, o conhecimento e o lazer − encontra-se estruturalmente vocacionada para proporcionar a possibilidade de nos conhecermos a nós próprios e ao mundo à nossa volta.
 
ORIGEM

Na segunda metade do século XIX, o regime liberal, ao promover uma nova política para a cultura, começa a publicitar em Portugal a ideia de biblioteca pública: um equipamento cultural cujo objectivo é o de alargar o conhecimento às mais vastas camadas da população e a todo o espaço nacional.

Neste sentido, a tentativa de levar a cabo uma política integrada de bibliotecas vai consubstanciar-se, entre outra documentação, no Decreto de 2 de Agosto em 1870 que propõe a criação de bibliotecas populares, um novo tipo de bibliotecas que reuniriam os conhecimentos elementares e se destinavam às classes mais necessitadas. Este decreto obrigava cada câmara a criar pelo menos uma biblioteca na capital do concelho. As juntas de distrito e as juntas de paróquia eram igualmente autorizadas a organizar bibliotecas populares.

Este documento vem pois consagrar, no nosso país, uma grande mudança: a alteração do paradigma de biblioteca substituindo o das grandes bibliotecas-livrarias conventuais, espaços de introspecção e de cultura dirigidas a comunidades restritas de leitores. Os ideias republicanos incentivam deste modo a criação de grandes bibliotecas públicas do regime, nas capitais de distrito, bem como de bibliotecas populares, mais pequenas , que se pretendiam espaços de instrução e de informação, adstritas a instituições de ensino, profissionais e de classe.

Esta mudança implica, então, também uma mudança do público a que as bibliotecas se destinam: do leitor mais contemplativo e erudito do passado para um novo leitor-utilizador mais activo que necessita de novos conhecimentos que o ajudem a adaptar-se a uma nova realidade social, económica e técnica.

Nasce, assim, em Portugal o conceito de Biblioteca Pública como hoje a conhecemos.

Os serviços de extensão bibliotecária constituem, pois, parte integrante das Bibliotecas Públicas e estão patentes na documentação através da qual a República vai tentar pôr em prática os serviços característicos destas novas bibliotecas que os documentos da época referem explicitamente: para além do livre acesso, do empréstimo domiciliário, das salas infantis…:

      a leitura nos Caminhos de Ferro,
      a leitura nos hospitais,
      a leitura nas prisões e...
      as colecções móveis.

De todos estes serviços, o que se viria a tornar mais popular e duradouro foi o das bibliotecas móveis, designação do início do século XX para as bibliotecas-caixa.

 
BIBLIOTECAS-CAIXA: as grandes protagonistas

Com efeito, a constatação da ausência de bibliotecas populares, em 1914, levou os então Serviços de Inspecção das Bibliotecas Populares e Móveis, da administração central, a iniciar um processo centralizado de organização e «distribuição» de bibliotecas. Segundo Augusto Pereira de Betencourt Ataíde, estas novas bibliotecas móveis inspiravam-se nas pequenas traveling libraries instaladas em carros de rodas que acompanhavam os trabalhadores das florestas, minas e vias férreas da Austrália e do Canadá. Segundo este funcionário dos Serviços de Bibliotecas da República, a versatilidade destas bibliotecas explica por que foram rapidamente adoptadas para difusão da leitura em localidade distantes, sob a forma de caixas e caixotes de todos os tipos, em diferentes países (Alemanha, Holanda, Suécia, Noruega).

A primeira biblioteca móvel portuguesa é, pois, a CAIXA-ESTANTE, modelo proposto por Augusto Ataíde, adaptado das congéneres alemãs e registado em 1914 pela Inspecção das Bibliotecas e Arquivos. Concebida como uma biblioteca autónoma, dado que integrava estantes, livros, catálogo e sistema de empréstimo, esta biblioteca móvel foi pensada de modo a poder adaptar-se a todos os tipos de transporte, nomeadamente as carroças e o caminho de ferro, «enquanto o automobilismo, revolucionando o serviço da bibliotecas ambulante, as não fizer regressar ao primitivo tipo de instalação em carro, embora notavelmente melhorado». A biblioteca móvel de Tipo A tinha capacidade para 400 livros. A do tipo B, 200.

Biblioteca móvel de tipo A (400 livros)

Em 1922, circulavam no nosso país 22 bibliotecas móveis de tipo B, e em 1926, 19. Não temos conhecimento da existência efectiva das de tipo A.

As bibliotecas móveis portuguesas do início do século XX estão, como todos hoje sabemos, na origem das bibliotecas-caixa dos nossos dias, as quais no seu conjunto não podem deixar de ser consideradas as grandes protagonistas dos serviços de extensão bibliotecária no nosso país. Com efeito, o serviço de extensão bibliotecária mais difundido em Portugal, em geral concebido e coordenado pelas Bibliotecas Públicas, é o das bibliotecas-caixa: colecções de livros periodicamente renovadas e emprestadas colectivamente a escolas, lares, centros de dia, hospitais, prisões, cafés, etc.

Sob inúmeras variantes, como as caixas de madeira, próximas da Biblioteca móvel de tipo B, ou as Bibliomalas de Arouca, com capacidade para cerca de 25 livros, que são distribuídas pela Biblioteca Itinerante e, quando abertas, se transformam em estante.
    
Bibliomalas de Arouca 2007

Sob a forma de baús em verga, como em Águeda:

Biblioteca Municipal de Águeda – 2006

Ou de caixas em plástico, como as da Biblioteca Municipal de Porto de Mós, que as disponibiliza aos Jardins de Infância, Escolas do 1º. Ciclo do Ensino Básico, Lares e Centros de Dia do concelho.

Porto de Mós - 2008


Porto de Mós - 2008
Ou ainda, agora atualizadas, sob a forma de malas de viagem com rodas, como as Bibliomalas com capacidade para 25 livros da Biblioteca e Centro de Recursos da Escola EBI /JI de Montenegro:

Montenegro, Faro - 2007
A partir do final dos anos 90, foram concebidos alguns projectos de bibliotecas móveis destinados a alguns países dos PALOP, como as que o ex-Instituto Português do Livro e das Bibliotecas ofereceu diversas Bibliotecas itinerantes a Timor e a Moçambique, em fabricada em contraplacado marítimo e pronta a funcionar como estante.

Bibliotecas móveis para Timor e Moçambique – DGLB - 1998


Já o projecto das Bibliotecas Móveis de Saúde, uma iniciativa da Ordem dos Enfermeiros e do Conselho Internacional dos Enfermeiros (ICN), optou por malas de viagem também muito resistentes: oferecem informação actualizada e obras de referência nas áreas da Medicina e da Enfermagem, em português, a profissionais de saúde em áreas remotas ou onde o acesso à formação é particularmente difícil. Em 2007, estas Bibliotecas móveis foram enviadas para São Tomé, Moçambique e Angola.



Biblioteca móvel para Cabo Verde – 2008


BIBLIOGRAFIA

ATAÍDE, Augusto Pereira de Bettencourt –  A organização da primeira biblioteca móvel portuguesa. Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1915, vol. 1 n. 3 p. 89-94: [Em linha]. [Consult. 06-10-2009]. Disponível em WWW: <http://purl.pt/255/2/P36.html>
 

BARATA, Paulo J. S. Os livros e o liberalismo: da livraria conventual à biblioteca pública: uma alteração de paradigma. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2003. ISBN 972-565-368-8


MARÇAL, Nuno O Papalagui: crónicas de um bibliotecário ambulante: [Em linha]. [Consult. 06-10-2009]. Disponível em WWW: <http://opapalagui.blogspot.com/>

NUNES, Henrique Barreto Nunes Da biblioteca ao leitor: estudos sobre a leitura pública em Portugal. Braga: Autores de Braga, 1996

 

MELO, Daniel Leitura e leitores nas bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957-1987): [Em linha]. 2004.[Consult. 06.10.2009]. Disponível em WWW: <http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/wp2004/WP1-2004.pdf>

TRINDADE, Luís. A leitura pública no Portugal contemporâneo (1926-1987). Etnográfica: [Em linha]. Maio 2006, vol.10, no.1, p. 209-211. [Consult. 06-10-2009]. Disponível em WWW: < http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0873-65612006000100015&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0873-6561

VILARINHO, Fernando As bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian (1958-2002). Bibliotecas em Portugal: [Em linha]. 2006. [Consult. 06/10/2009]. Disponível em WWW: < http://bep-suporte.blogspot.com/2006/12/as-bibliotecas-itinerantes-da-fundao.html>


O presente texto, que data do final de 2009, foi redigido em parceria com a minha colega Catarina Costa Macedo e tem por base uma ampla e diversificada pesquisa da documentação que a Internet nos oferece, a qual, como sabemos, é fruto de inúmeros contributos individuais. Neste sentido, e porque acreditamos que o conhecimento é na sua essência colectivo e partilhado, apenas nos pareceu necessário mencionar, na Bibliografia, as principais referências documentais de que nos socorremos para redigir este texto. Assim, cumpre-nos afirmar que, do nosso ponto de vista, a autoria deste texto é também de todos os que, muitas vezes anonimamente, editaram online os textos e as imagens sobre livros, leituras e bibliotecas aqui referidos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

No país dos adolescentes a ler: CNL 2012

Ao longo de seis anos, o Concurso Nacional de Leitura (CNL) transformou-se no maior evento de promoção da leitura dirigido aos adolescentes portugueses: milhares de jovens entre os 13 aos 17 anos, oriundos de cerca de 700 escolas do 3º. ciclo e do secundário, propõem-se ler dois livros indicados pelos seus professores. Deste universo de jovens cujos números não se se encontram ainda estimados com precisão, foram este ano apurados cerca de 2300 jovens que decidiram ler outros dois livros mais, desta feita selecionados por 18 Bibliotecas Públicas Municipais, uma por cada distrito.

O CNL em Ílhavo pelo distrito de Aveiro: fotografia de grupo.
É a estas 18 Bibliotecas que compete organizar a prova distrital: um evento em que centenas de jovens de um distrito se conhecem pela primeira vez, conjuntamente com muitos professores e bibliotecários que aí também se (re)encontram, e que, a propósito destas leituras comuns, convivem durante toda uma tarde. 
As provas distritais do CNL são uma grande festa de adolescentes leitores. Para tal, contam com o apoio de mais de duas centenas de técnicos de biblioteca e de professores, e a colaboração generosa de mais de meia centena de personalidades, entre escritores, ensaístas, músicos, políticos, jornalistas e apresentadores de televisão e de rádio que aceitam constituir os diferentes júris distritais e, deste modo, oferecem a sua imagem pública à promoção da leitura…
Ao longo deste dia de festa, o concelho anfitrião oferece a todos uma prestação artística: um bailado, uma peça de teatro ou de música, um momento de humor, na sua maioria protagonizados por jovens do concelho, e  ainda  um lanche que reúne todos em torno de uma grande mesa onde as conversas giram sempre em torno de livros e de leituras... A RTP1 apoia também generosamente este evento, divulgando as 18 provas distritais para todo o país através de reportagens realizadas no local. Depois de realizarem uma prova de conhecimento dos conteúdos lidos, os melhores passam a uma prestação oral, em palco, onde lhes é pedido que, perante todo o público reunido num anfiteatro, realizem as provas necessárias ao apuramento dos vencedores, que irão representar o distrito na final nacional!

Foto, como a anterior, da autoria da Biblioteca Municipal de Ílhavo.
 Como nos dizia um adolescente na semana passada: «Com os livros conhecemos outros lugares e outras pessoas, uns imaginários e outros reais: se não fosse o CNL, não teria vindo aqui nem teria conhecido tantas pessoas diferentes!»
Para se realizar, esta iniciativa do Plano Nacional de Leitura conta com o apoio da Rede de Bibliotecas Escolares (Ministério da Educação), da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas (Secretaria de Estado da Cultura) e da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sempre!

«25 de Abril», cartaz de Vieira da Silva
                          25 de abril                                                                        

                      Esta é a madrugada que eu esperava
                      O dia inicial inteiro e limpo
                      Onde emergimos da noite e do silêncio
                      E livres habitamos a substância do tempo 
 
                                                                            Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 28 de março de 2012

«Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos?»: Bibliotecas Públicas Municipais 2012

RNBP 1987-2012

Tudo começou com um sonho porque na realidade tudo o que que é verdadeiramente importante na vida sempre começa como um sonho. Rómulo de Carvalho foi uma das personalidades da nossa história recente que o afirmou poética e hiperbolicamente em Eles não sabem que o sonho... E não certamente por acaso, foi este poema que o tornou popular no nosso país, quando toda a actividade deste professor, cientista e poeta era já então sobejamente conhecida no meio intelectual português.

Foi também assim que nasceu a RNBP... Um pequeno grupo de pessoas e um grande sonho. Uma imensa lacuna na construção de um país livre e democrático, muitíssimo trabalho, uma dedicação quase sem limites, um compromisso pessoal e social: «O sonho comanda a vida»!
  
 Do encantamento inicial com a «Hora do conto»...

... aos grandes Encontros em torno da narração oral, como as «Palavras Andarilhas», em Beja,
... e da leitura, como os «Caminhos da Leitura», em Pombal,
... à Web 2.0,
.... às bibliotecas digitais sobre o património intangível da nossa história local!
Interrogamo-nos muitas vezes, com desânimo, sobre como é possível o poder político, em particular o autárquico, não ter a noção do que é uma Biblioteca Pública Municipal, tanto no que significa para uma comunidade, como, para que funcione, em investimento em recursos humanos, bens, serviços e despesas correntes... Trabalhámos já tanto! Demos já tantas provas!

Deveríamos, contudo, recordar que os portugueses com mais de 35 anos não têm, nem poderiam ter, nem a noção de pertença, nem muito menos a das potencialidades de um Biblioteca Pública no sentido em que a UNESCO a define. Não que o trabalho realizado em Portugal nos últimos 25 anos nesta área, não tenha sido muitíssimo... Mas partimos de um patamar muito baixo e que, sem a Fundação Gulbenkian, seria próximo de 0. E não temos, como em outros países desenvolvidos, mais de 100 anos de presença ativa destes equipamentos culturais nas respetivas comunidades.

Quando as Bibliotecas Públicas Municipais / RNBP «chegaram» ao nosso país, nós, os que agora sabemos o que são e sobretudo o que podem ser estes equipamentos culturais, vivemos um tempo de encantamento. E também de muito estudo e reflexão.

Conhecemos, maravilhados, as bibliotecas públicas com mais de 100 anos...
... estudámos, em francês e em inglês, o tratamento documental,
... a gestão biblioteconómica,

.... aprendemos UNIMARC,
     
e analisámos a Z 39-50, em «bibliotequês» puro e duro!

Entre o deslumbramento, o compromisso e o espírito de serviço público, dedicámos dias e dias de imaginação ao espaço maravilhoso da hora do conto, estudámos o equipamento específico das bibliotecas públicas (dos pufs às estantes compactas de depósito), os espaços e os circuitos funcionais da Biblioteca. Discutimos até à exaustão e acesamente o livre acesso, a CDU, os centros de interesse, o sistema de cotação… E, quase sem interrupção, as bases de dados bibliográficos, o Unimarc, o $a, o campo 702, as Porbases, a importação de registos, a Z 39.50... No conjunto de todos nós, investimos meses e meses, anos, na construção de um saber técnico especializado com que contribuímos para que ganhassem vida os edifícios das Bibliotecas Municipais do nosso país.

«Levantadas do chão» com o incentivo e o apoio da DGLB, com a vontade por vezes visionária de muitos autarcas e com o trabalho incansável de bibliotecários e outros técnicos comprometidos com esta causa, podemos afirmar que é agora, em 2012, que existe uma rede de bibliotecas públicas de dimensão nacional.  Mas é também agora que as Bibliotecas Públicas Municipais irão ter de vencer um enorme desafio. Mais um, é verdade. Mas estrutural.

Com efeito, a crise que vivemos, conjugada com as mudanças tecnológicas em constante aceleramento, tanto poderão consolidar a inscrição definitiva das Bibliotecas Públicas nas suas comunidades, como demonstrar que as Bibliotecas Municipais em alguns casos deixaram de fazer sentido. Talvez, no conjunto do território nacional, ambas as situações ocorram: nuns sítios evoluindo as Bibliotecas Públicas para grande centros de partilha crítica de todas as formas de conhecimento, noutros pura e simplesmente fechando as portas.

RNBP 2012-2037?
É verdade que não podemos conhecer de antemão o futuro mapa que sinalizará a RNBP nos próximos 25 anos. Talvez seja efectivamente muito difícil prever o que sucederá com este tipo específico de equipamento cultural, mesmo nos países em que as Bibliotecas vivem há mais de 100 anos. Todavia, o que sabemos seguramente, é que este é um tempo em que as Bibliotecas Públicas serão postas à prova e que este desafio deverá ser encarado como um estímulo e uma oportunidade únicos. 

Porque a manutenção de Bibliotecas Públicas ativas implica efetivamente um investimento  financeiro contínuo, por parte do poder político, e um investimento em estudo, trabalho, reflexão e criatividade permanentes, por parte das respetivas equipas técnicas: uma dedicação que apenas o amor ao que fazemos e o espírito de missão poderão muitas vezes sustentar. Pelo que necessitamos, mais do que nunca, de estudar e de trabalhar muito, de reunir esforços e de partilhar projectos. E de não prescindir de uma grande dose de sonho, de preferência em formato XXXL. O formato dos sonhos verdadeiramente importantes na vida.

    
                                                                   
                                                                   Pelo sonho é que vamos,
                                                                   comovidos e mudos.
                                                                   Chegamos? Não chegamos?
                                                                   ....... 


                                                                   ─ Partimos. Vamos. Somos.
                                                                                             Sebastião da Gama

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um lugar extraordinário: a Biblioteca Pública Municipal

Acredito que, de entre os mais extraordinários lugares concebidos pelo ser humano, a Biblioteca Pública detém um estatuto de eleição. Com efeito, se me perguntarem «para que serve uma Biblioteca Pública?», a minha resposta, 25 anos depois de começar a estudar as potencialidades destes espaços únicos, não tenho dúvidas em responder que a Biblioteca Pública serve para vivermos uma vida melhor!

  
E, com efeito, pela diversidade do conhecimento que disponibiliza e pela reflexão partilhada que promove, a Biblioteca Pública é o lugar por excelência do conhecimento crítico, da liberdade de espírito, da construção da cidadania, do sentido de comunidade, do melhor que os sapiens sapiens realizaram à superfície da terra. Nas palavras de Carl Sagan, a Biblioteca de Alexandria, paradigma por excelência de todas as bibliotecas, era o cérebro e a glória da grande cidade, o local onde se pode dizer que teve início a aventura intelectual que nos conduziria ao espaço, a cidadela da consciência humana. Onde se estudava tudo e tudo se discutia. Tudo, o cosmos, palavra grega que significa «ordem do Universo», em oposição ao caos.


 (ft. Sagan, Dawkins, Kaku, Jastrow)
Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, afirma que o exercício da cidadania requer, por parte de cada um de nós, a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade, o único modo de sobre elas reflectirmos, de as criticarmos, de as melhorarmos, de as defendermos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, ou seja, de saber ler, escrever e falar em público.

1º de Maio de 1974

Por isso, mais do que apenas o lugar do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca Pública é o lugar da aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar onde podemos estar sós e acompanhados. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar maravilhoso e insubstituível.

Biblioteca Municipal de Sintra

quarta-feira, 21 de março de 2012

FELIZ (fim de) DIA MUNDIAL DA POESIA!

«Formiga Bossa Nova» de Adriana Calcanhoto (2004), a minha versão preferida do poema de Alexandre O'Neill, com música de Alain Oulman para Amália Rodrigues.


Adriana Calcanhoto, 2011
Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
(-Obrigado, formiga!
 Mas a palha não cabe
 onde você sabe...)



                
(1924-1986)
AUTO-RETRATO, 1962



O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O' Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...


Nota biográfica: De ascendência irlandesa, A.O. nasceu em Lisboa, em 1924. Frequentou, depois do liceu, o Curso de Pilotagem da Escola Náutica, mas toda a sua vida foi antes do mais um autodidacta. Trabalhou em diversas áreas: na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, em publicidade e como cronista no Diário de Lisboa. Será, todavia, enquanto poeta maior que ficará na literatura portuguesa do século XX. Fundador do surrealismo português, de A. O. pode dizer-se que viveu em permanente estado poético e é, recorrendo sistematicamente a uma sátira impiedosa, mesclada de humor e de lirismo, que nos apresenta a sociedade portuguesa do seu tempo. Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.