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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Real Decreto 624/2014, de 18 de julio: pagar mais para ler em Espanha. O projeto de Lei 118 XII: pagar ainda mais para aceder à internet em Portugal

Com a internet, o acesso massificado à cultura estendeu-se mais ou menos livremente a todos os continentes. Na verdade, nunca antes desta era, qualquer autor de qualquer objeto artístico pôde ser tão lido, visto e ouvido.

É por isso que é sobretudo a partir da transição do século que as entidades de gestão colectiva do direito de autor (bem como as grandes empresas multimédia) que se foram constituindo e consolidando a respetiva atividade na Europa, ao longo do século XX, começam a defender o aumento dos Direitos de Autor em detrimento do Domínio Público, ou seja do aceso livre às referidas obras.

No caso específico das Bibliotecas Públicas europeias, aquelas entidades e empresas (nem tanto os autores) constituíram-se num lobby europeu em defesa de legislação que imponha o maior número possível de taxas à utilização e fruição de todos de bens audiovisuais.

Como as Bibliotecas Públicas ao adquirir esses bens já pagavam direitos de autor, a União Europeia avança com legislação que propõe o pagamento de uma taxa pelo empréstimo domiciliário, até então sempre gratuito, de livros, cds e dvds. Os países do Sul da Europa, alegando sobretudo a fragilidade dos hábitos de leitura dos respetivos países, para além do esforço de construção e de manutenção de redes nacionais de bibliotecas públicas, iniciado nos finais do século XX, tentam e conseguem eximir-se e protelar esta imposição legal. Estamos em 2004. Contudo, a pressão de imposição da Diretiva Europeia de Defesa dos Direitos de Autor e Direitos Conexos continua a ganhar terreno.

Em Espanha, por exemplo, quando o governo espanhol adere a esta Diretiva (2007), os bibliotecários públicos organizaram-se no movimento NO AL PRESTAMO PAGO que sistematizou e divulgou amplamente as razões pelas quais as Bibliotecas Públicas não deveriam jamais cobrar o empréstimo aos seus leitores pelas obras compradas por cada Biblioteca.



As principais razões invocadas baseiam-se em todo o trabalho que as Bibliotecas investem na identificação, manutenção e divulgação das obras que detêm, bem como na promoção que fazem dos respetivos autores, inclusivamente quando as obras se encontram esgotadas no mercado.Ver uma breve história da imposição do empréstimo pago aqui.


Contudo, o Estado espanhol acabou, nesse mesmo ano, por assumir o pagamento desta dívida, a cujo valor se chegou com base num cálculo de empréstimos realizados. Com o progressivo avanço das políticas neoliberais que se vêm alastrando por toda a Europa, o atual governo espanhol decide consolidar este ónus cultural. Assim no dia 1 agosto deste ano, ou seja, em pleno Verão, foi publicado no Boletim Oficial do Estado «o Real Decreto 624/2014, de 18 de julio, por el que se desarrolla el derecho de remuneración a los autores por los préstamos de sus obras realizados en determinados establecimientos accesibles al público.»

«Según el real decreto estarán sujetos a la compensación a los autores por el préstamo de obras con derechos de propiedad intelectual los museos, archivos, bibliotecas, hemerotecas, fonotecas o filmotecas de titularidad pública o que pertenezcan a entidades de interés general de carácter cultural, científico o educativo sin ánimo de lucro.» O decreto isenta de pagamento as bibliotecas escolares e os ayuntamentos com menos de 5000 habitantes.

O Conselho de Ministros afirma que este pagamento  «en ningún caso supone cargas para los ciudadanos», na medida em que o real decreto «afecta fundamentalmente las administraciones públicas titulares de estos establecimientos». Todavia, se as bibliotecas públicas espanholas, como tantas outras na Europa e nos EUA, já se debatem com cortes brutais nos seus pressupuestos, tendo mesmo chegado a orçamentos 0 (zero) para aquisição de obras, como poderão pagar agora para a respetiva utilização?


Dados obtidos nesta Plataforma.
Em Portugal, a Diretiva Europeia não foi aplicada com a justificação evidente de que as bibliotecas públicas portuguesas são equipamentos culturais muito recentes, e que se está realizando um enorme esforço da construção e da manutenção da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP). A estes factos acrescem ainda os frágeis hábitos de leitura da população portuguesa.



Contudo, também na sequência do que se passara em Espanha, em 2008 começa a falar-se entre bibliotecários nos perigos da aplicação Diretiva Europeia em Portugal, como se pode verificar pela tomada de posição da BAD (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas).

Em 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores envia um ofício «a diversas entidades titulares de bibliotecas públicas alertando para a necessidade de requerer autorização e pagar uma taxa pela realização de "espetáculos", que incluem atividades de animação e dinamização da leitura habitualmente realizadas em bibliotecas de que é dado como exemplo "A hora do conto"». Na sequência de alguns contactos e alertas para as graves consequências desta situação, como o da BAD, o conselho de administração da SPA anulou o referido ofício.

Em 2013, a Gedipe (Associação para a Gestão de Direitos e Autor, Produtores e Editores) criada em Março de 2012, tenta agora ela fazer cobrar o empréstimo de obras nas Bibliotecas Públicas, sendo de novo contestada, entre outros, pela BAD.

Na impossibilidade de cobrar o empréstimo e, sobretudo, na ausência de investimento significativos em aquisições de obras por parte da maioria das bibliotecas públicas portuguesas, a empresa de gestão de direitos de autor, GEDIPE, concentra-se, à semelhança das suas congéneres europeias. na pressão para que sejam taxados todos os equipamentos que permitem a cópia ilegal, a saber:



O que significa que a partir de hoje o governo de Portugal aprovou o Projeto de lei 118/XII no qual se decreta que a a compra de qualquer destes equipamentos integrará, desde logo, uma taxa destinada a pagar Direitos de Autor, mesmo que quem os compre nunca os utilize e que, se o fizer, o faça, pagando-os deste modo em duplicado.

Em Portugal como em Espanha o acesso livre à cultura por parte de todos encontra-se progressiva, mas incontestavelmente cerceado em prol de uns quantos poucos, entre os quais os autores não serão com certeza quem mais recebe.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Clubes de leitura nas Bibliotecas Públicas: uma aposta a incentivar!

A definição de clube de leitura original é espanhola e nela se afirma que um clube de leitura é um grupo de pessoas que lêem individualmente um mesmo livro, ao ritmo de cerca de uma centena de páginas por semana, e que se reúnem semanalmente na Biblioteca Pública para discutir as suas leituras: o estilo literário, a acção, as personagens, e sobretudo as experiências e emoções pessoais... que aquela leitura suscita a cada membro do clube. 

Esta forma de partilhar a leitura não apenas enriquece a leitura individual como motiva os leitores mais frágeis a avançarem para leituras mais difíceis. Em Espanha, as centenas de clubes de leitura filiados em Bibliotecas Públicas, são maioritariamente constituídos por mulheres, de meia idade, que há muito tinham deixado de ler e que nunca antes tinham sido, nem de perto nem de longe, grandes ou médias leitoras. Para além da leitura, os clubes avançam muitas vezes para outras leituras complementares: filmes, peças de teatro, exposições, percursos literários, encontros com autores, conferências, debates. Muitos editam blogues onde descrevem a dinâmica do seu clube. Estes leitores afirmam ter alterado positivamente o seu quotidiano e alargado, como nunca antes podiam imaginar, os seus horizontes culturais


No nosso país, os clubes de leitura constituem uma prática de promoção da leitura ainda não generalizada no âmbito das actividades das Bibliotecas de Leitura Pública e, por conseguinte, ainda incipiente quando comparada com a realidade espanhola. A partir do início de 2000, o então Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB) promoveu e cofinanciou Comunidades de Leitores, um projecto dirigido a grandes e médios leitores. A estes era proposto que se reunissem uma vez por mês, ao longo de seis meses, para ouvirem a opinião de um especialista em literatura, em geral um académico, e com ele dialogarem acerca de um conjunto de livros (dois, três, por sessão) previamente seleccionados e lidos por todos para este efeito. 


O principal objectivo das Comunidades de Leitores era que estes aprofundassem o seu nível literário, partilhando a fruição colectiva da leitura. Esperava-se que, em consequência, de entre estes leitores, alguns se assumissem como futuros coordenadores de clubes de leitura idênticos aos espanhóis. Ou seja, dirigidos a leitores com poucos hábitos de leitura, leitores de um ou menos livros por ano e que, a partir de uma nova motivação para a leitura, começassem a ler mais e melhor e, a partir daí, a descobrir o mundo da cultura.


Na realidade, de então até agora, as Comunidades de Leitores não deram propriamente origem a clubes de leitura, ou seja, não promoveram a leitura entre pessoas que decidem, já em plena maturidade, (re)começar a ler e a reflectir sobre livros e leituras. No contexto das Bibliotecas Públicas, a Comunidade de Leitores da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, é hoje talvez a única que ainda funciona nestes moldes e tem para tal contado com o apoio da DGLAB. 


São pois ainda relativamente poucas as bibliotecas que apoiam um clube de leitura e as que o fazem integraram algumas das características das Comunidade de Leitores, nomeadamente a periodização dos encontros e o tipo de leitores. Em Espanha, esta iniciativa, que explodiu na década passada e constitui hoje parte integrante da vida de qualquer Biblioteca Pública, onde é usual que se apoiem diversos clubes de leitura (uma dezena, por vezes mais…). os clubes de leitura reúnem-se semanalmente, ao final da tarde, e são coordenados indiferentemente por um técnico da biblioteca ou um cidadão, em regime de voluntariado.


Contudo, nos últimos anos registámos o aparecimento de clubes de leitura nas Bibliotecas Portuguesas, os quais funcionam, até certo ponto, como os espanhóis, reunindo-se todavia com menor frequência mensal, por vezes quinzenalmente. Os clubes de leitura das Bibliotecas Públicas do Algarve são, no seu conjunto e enquanto região, os mais homogéneos e os mais antigos. Já em 2009 organizaram, à semelhança das Bibliotecas suas vizinhas da Andaluzia, o I Encontro de Clubes de Leitura do Algarve para o qual convidaram ainda duas bibliotecas espanholas a de Huelva e a de Dos Hermanas


As diferenças entre as duas realidades foram então evidenciadas, a começar pelo número de clubes presentes: as bibliotecas portuguesas apoiavam cada uma um clube de leitura, as espanholas vários, entre seis e doze; também o grau de autonomia dos leitores se refletiu na apresentação da atividade de cada clube: pelos clubes portugueses falaram os coordenadores, pelos espanhóis, os membros dos clubes.




O clube de leitura da Biblioteca de Portimão é um dos mais antigos clubes de leitura do nosso país, muito provavelmente o primeiro. Cumpriu 10 anos de leituras em 2012, ao longo dos quais foram lidos mais de 100 livros. Reúne-se mensalmente e todos os membros comentam o livro lido, ao sabor um pequeno lanche. É coordenado por duas bibliotecárias.

O clube de leitura da Biblioteca Municipal de Silves reúne também uma vez por mês, à hora do lanche. Mantém, desde setembro de 2012 o blogue Silves a ler + onde nos dá conta das respetivas atividades, entre as quais o 1º. Encontro dos (quatro) clubes de leitura concelhios, realizado em Abril deste ano.  



A Biblioteca Municipal da Maia apoiou um clube de leitura juvenil, entre 2007 e 2011, para efeitos de avaliação de práticas de leitura em Biblioteca e, já em 2013, anunciava a 4ª. edição da Comunidade de Leitores da Biblioteca denominada «Contemporâneos clássicos por-vir».

Em fevereiro de 2011, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo dinamizava um clube de leitura para crianças. 



Viana do Castelo.
Na Biblioteca de São Domingos de Rana, em Cascais, o clube de leitura denomina-se comunidade de leitores, é coordenado por Manuel Nunes, João Pequenão e Manuela Martins e continua ativo desde a sua criação, em meados de 2006. Edita, desde 2007, o blogue Com olhos de ler, o qual reúne apontamentos diversos sobre a atividade do grupo que também tem uma página no Facebook, denominada Comunidade de Leitores de... 


São Domingos de Rana, Cascais
Em março deste ano, numa visita literária a Miranda do Corvo apadrinharam o Clube de Leitura da Biblioteca Miguel Torga, esta agora a ler um livro por mês.



As Bibliotecas Municipais de Oeiras convocaram, em 2007, os seus primeiros Grupos de leitores, nas Bibliotecas de Oeiras e de Carnaxide. Em 2008, nasce o de Algés.


Oeiras.
Carnaxide.
Algés.
De então para cá, o blogue Oeiras a ler dá-nos regularmente conta da respetiva história, ilustrada com diversas fotos, de entre as quais as apresentadas a cima.

A Biblioteca de Torres Novas dinamiza, desde 2008, um clube de leitura que reúne mensalmente.


A Biblioteca Pública e o Arquivo Regional João José da Graça, da Horta, apoiaram pelo menos entre 2010 e 2011, uma comunidade de leitores, cuja atividade é parcialmente descrita no respetivo blogue, Comunidade de Leitores da Horta.


A Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira dinamiza, pelo menos desde 2009, uma comunidade de leitores denominada «Chá com letras», em quase tudo idêntica a um clube de leitura.



A comunidade em visita às Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, Julho de 2013.
A Comunidade de Leitores Hemeroteca (da rede de Bibliotecas de Lisboa) foi criada em 2009 e considera-se também uma tertúlia.

Convite para uma sessão sobre Guerra Junqueiro.
O clube de leitura da Biblioteca Municipal de Beja edita, desde 2010, um blogue sob o lema «Partilhamos consigo o prazer da leitura». Para além de acompanhar a atividade do clube que se reúne mensalmente na Biblioteca, o blogue serve também para dar conta das iniciativas da Biblioteca.

A Biblioteca Municipal de Ílhavo promove, também desde 2010, dois clubes de leitura para pais e filhos: o Crescer a ler para crianças dos 3 aos 7 anos e o Crescemos e já lemos para crianças dos 8 aos 10 anos, de periodicidade mensal.


Ainda em março deste mesmo ano a Biblioteca Municipal de Alcochete inaugura um Clube de leitura em voz alta, o CLEVA, coordenado por Cristina Paiva dos Andante.


Registo de uma sessão.
Cristina Paiva
Reúnem-se quinzenalmente e registam a respetiva atividade num blogue primorosamente editado. De então até hoje já contagiaram outros leitores que também eles se apaixonaram por esta secular forma de ler.

Foi o caso de O Clube de Leitura da Biblioteca Municipal do Montijo que teve início em 2012 e cujas sessões são divulgadas no respetivo blogue. Em junho de 2013, o Palavras ao alto encerrou a sua primeira edição anual com uma sessão aberta ao público.


A Biblioteca Municipal de Gondomar dinamiza, desde 2011, uma comunidade de leitores que, ao longo do ano, convida diversos escritores que propõem leituras acerca das quais depois refletem e se generaliza o dialógo.


Em Vila Real de Santo António, o clube de leitura denomina-se «Livros mexidos» e inaugurou em 2011. É organizado pela Biblioteca Municipal Vicente Campinas (VRSA), pelo Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela / CMVRSA e pela ADRIP - Associação de Defesa, Reabilitação, Investigação e Promoção do Património Natural e Cultural de Cacela. Reúne-se uma vez por mês, pelas 18 horas, nas instalações da Biblioteca Municipal.


«Torne-se seguidor deste espaço de partilha!» é o lema do Clube de leitura  da Biblioteca de São João da Madeira que reúne mensalmente, pelas 21h00, desde Outubro de 2012. A Biblioteca de Melgaço está promover dois clubes de leitura, um de adolescentes, outro de adultos. 


A Biblioteca Municipal José Saramago de Loures promove, pelo menos desde este ano, uma comunidade de leitores subordinada a um tema, no caso «personagens literárias femininas» que se reúne mensalmente entre Abril e Dezembro.



A propósito da comemoração do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, a 23 de abril deste ano, a Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão, criou um clube de leitura de autores clássicos que então reuniu pela primeira vez.

Também a Biblioteca Municipal do Barreiro inaugurou, também este ano, o primeiro clube de leitura juvenil que se reúne mensalmente, aos sábados de manhã, coordenado pela jovem professora Claúdia Vieira.


Os mais recentes clubes de leitura das bibliotecas públicas portuguesas nasceram esta Primavera, respectivamente no dia 24 de maio, pelas 21 horas, na Biblioteca Municipal de Nelas e a 6 de Junho, também pelas 21 horas, na de Mangualde


Em Nelas, o clube de leitura reuniu 13 leitores que decidiram reler Aquilino Ribeiro, cada qual um livro à sua escolha, e encontrarem-se no mês seguinte. Recorde-se que nesta biblioteca, o projecto «Leitura a par», também iniciado este ano, é um misto de clube de leitura e atividade de promoção da leitura para pais e filhos.


O clube de leitura da Biblioteca de Mangualde conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e uma parceria com a Livraria Adrião.


Outros clubes, grupos e encontros de leitura 


Na Feira do Livro de Lisboa deste ano, 10 comunidades de leitores / clubes de leitura, da área da Grande Lisboa, apresentaram os livros que estavam a ler. A partir desta amostra podemos concluir que a designação comunidades de leitores ou clubes de leitura tendem a ser  sinónimas. Deste conjunto, apenas três têm sede em Bibliotecas Públicas (Oeiras e Lisboa), três têm origem em livrarias e outras estão ligadas ou a pessoas ou grupos ou a instituições.

As transformações que têm vindo a acontecer no mercado livreiro, conduziram as livrarias a  novos modelos de funcionamento: muito mais do que venda a retalho, procura-se agora que sejam lugares para se estar e se conversar, para debater assuntos diversos e tomar um café. A esta mudança também não será alheia a abertura da FNAC em Portugal, onde os clubes de leitura reais ou virtuais há muito têm lugar.

Neste contexto, a Livraria Almedina reúne duas vezes por mês, desde março de 2006 até ao presente, o clube Café e Letras, Comunidade de Leitores  dirigido por Filipa Melo na livraria do Atrium Saldanha, em Lisboa. Em 2008, esta editora inaugura duas outras Comunidades de Leitores Almedina: a de Coimbra que, em colaboração com o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade, reúne na livraria Estádio Cidade de Coimbra e a de Gaia, com sede na livraria do Arrábida Shopping.


Também a Livraria Bertrand promove através do blogue Clube de Leitura Bertrand, três clubes de leitura:  Ponta Delgada, Açores,Braga e Porto, e tem em agenda a constituição de outros dois, em Lisboa e em Coimbra respetivamente. Reúnem-se mensalmente numa das lojas desta cadeia livreira e todos tem pelo menos um coordenador.





A Comunidade de Leitores sobre Paisagens Literárias de Lisboa da Livraria Fabula Urbis, em Lisboa, foi criada em 2010 e reúne mensalmente. Tem uma parceria com o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, coordenado pelo IELT (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa)

Também o grupo Leya anuncia para este ano o Leya em Grupo - Comunidade de leitores nas livrarias Buchholz e Leya na Barata, em Lisboa, iniciativa esta que é organizada por este grupo editorial e dinamizada pelo jornalista Luís Ricardo Duarte. Sujeitas a inscrição prévia, as sessões serão quinzenais. O pagamento de 30 euros inclui participação em seis sessões, documentação e oferta de vales no valor de 15 euros para compras nas livrarias LeYa na Buchholz ou Leya na Barata.


O Café com Letras é uma iniciativa das Biblioteca Municipais de Oeiras que, de 2007 até dezembro de 2012 pretendeu promover o encontro informal entre grandes leitores (jovens e adultos) e autores contemporâneos. Contava com o apoio da Rádio TSF, com uma periodicidade mensal e era apresentada pelo jornalista Carlos Vaz Marques.


C.V.M. à conversa com Joana Amaral.
Por seu turno, a Biblioteca da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, demonstra o dinamismo desta instituição do ensino superior, ao promover, desde 2010, um Clube de Leitura da FEUP.

Clube de leitura da FEUP.
Desde outubro de 2011 que o Instituto Cervantes de Lisboa mantém o Club de Lectura de Lisboa, divulgado pelo blogue com o mesmo título e presentemente coordenado pela escritora Karla Suárez, reunindo mensalmente.

A Biblioteca Pública de Castelo Branco muito embora tenha oficialmente inaugurado, em 2012, um clube de leitura, transformou este projeto numa tertúlia subordinada a um tema previamente selecionado. É dinamizado pela vereadora de cultura, reúne mensalmente e promove a discussão livre, podendo os respetivos membros mencionar eventualmente livros sobre o tema em discussão. 


O Ler por aí..., criado em 2006 e da autoria de Margarida Branco, é um projecto de animação cultural com base na leitura que exemplifica o que muitos clubes de leitura fazem e no qual muitos outros se podem inspirar. Conta, desde 2011, com o apoio da Junta de Freguesia de Carnide, em Lisboa, e em 2012 passa a Associação Cultural. Ao relacionar o livro e os lugares onde as narrativas se passam, o Ler por aí..., também no Facebook e no blogue homónimo, organiza eventos relacionados com sugestões de leitura e recria os lugares dessas histórias.


A Culturgest, à semelhança da Biblioteca Municipal Almeida Garrett do Porto, mantém desde 2002 uma comunidade de leitores, em termos praticamente idênticos aos do modelo inicial e é presentemente coordenada por Helena Vasconcelos.


O CCB, Centro Cultural de Belém também apoiou uma Comunidade de Leitores coordenada por reconhecidas personalidades do meio literário português, como em 2008, o Ciclo Mishima dirigido por Armando Silva Carvalho. Também o Theatro Circo de Braga promoveu em 2008 e 2009 uma comunidade de leitores. para 2013/2014, numa parceria com a Companhia de Teatro de Braga (CTB), O Theatro Circo propõe a formação de uma Comunidade de leituras dramáticas, em voz alta,para maiores de 17 anos.


A Biblioteca Municipal de Palmela em parceria com o Grupo de teatro O Bando promoveu em Julho deste ano uma nova comunidade de leitores «Ler para ver teatro» a propósito da encenação de A jangada de pedra de José Saramago.


Em Ponte de Lima, foi a Associação Cultural CAL, Comunidade Artística Limiana, com sede no Antigo Quartel dos Bombeiros Voluntários, quem anunciou a abertura de um clube de leitura em maio deste ano, tencionando reunir-se mensalmente, pelas 21h30. 



Promoção do clube de leitura da CAL.
A associação CACAV, Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, Moita, criou em em Novembro de 2012 uma comunidade de leitores que desde então tem funcionado com alguma regularidade

Como já foi mencionado, as novas redes sociais permitiram a promoção e divulgação da atividade dos clubes de leitura, mas tambem a própria criação de clubes de leitura online. Tal é o caso do sítio Clube da Leitura, criado em 2011, que a jornalista Isabel Coutinho descreveu no seu blogue Ciberescritas como o clube de leitura dos nossos dias. Neste sítio, os clubes funcionam online e na realidade. qualquer leitor pode criar um clube de leitura ou comunidade de leitores (aqui expressões sinónimas), por grupos de interesses. Sofia Ramos responsável por esta plataforma assinalava, em 2012, as vantagens da criação de clubes de leitura nas Bibliotecas Públicas, nomeadamente enquanto componente social da leitura.



Crie o seu Clube da Leitura e converse
sobre os seus livros com os seus
amigos. Uma forma fácil de se divertir
e aprender mais em conjunto e em
comunidade - See more at: http://www.clubedaleitura.pt/#sthash.qgLW3AMD.dpuf
O primeiro site social português sobre livros e criação de comunidades de leitores. Um espaço onde pode discutir os seus livros favoritos, participar em clubes de leitura na sua cidade e criar o seu grupo de leitura. - See more at: http://www.clubedaleitura.pt/#sthash.qgLW3AMD.dpuf


A informação mais completa e melhor sistematizada sobre como criar e desenvolver clubes de leitura, segundo o modelo espanhol, intitula-se Receta para un club de lectura, e é da autoria da bibliotecária Blanca Calvo. O documento da AGAL, Associaçom Galega da Língua, intitulado Guia com orientações para criar novos clubes de leitura acrescenta às orientações bibliografia diversa e indicações várias sobre clubes de leitura de diferentes tipos e em diferentes países.

Quanto aos clubes de leitura (mais do que comunidades de leitores) das nossas bibliotecas públicas parece-nos serem agora cada vez mais consideradas uma aposta a incentivar. Alguém tem mais informação sobre este assunto?


segunda-feira, 1 de abril de 2013

As Bibliotecas Públicas no século XXI: uma mudança inalienável?

Nas duas últimas décadas do século XX assistimos, um pouco por toda a Europa, à reivindicação e à construção em vasta escala de novas Bibliotecas Públicas declaradamente abertas a todos os cidadãos. Depois de muito se discutir o fim dos livros como os conhecemos e, por arrastamento, o do lugar os livros, as Bibliotecas Públicas analisadas agora, à luz do novo milénio, demonstram inequivocamente uma evidente mudança em relação à tradicional missão cultural e de ensino, de matriz anglo-saxónica, que até então se pedia a este equipamento cultural. 

Local de múltiplos eventos e encontros os mais diversos, a polivalência cultural e cívica é agora a marca indelével das bibliotecas públicas, cada vez mais versáteis e disponíveis para acolher todo o tipo de públicos e apoiar a sua comunidade.


A Biblioteca Pública deste novo século, para além de lugar de aprendizagem, tornou-se também um lugar para se estar e para se (con)viver. Distante das grandes bibliotecas centradas no empréstimo massivo, sem espaços de estudo e sem utilizadores durante as horas de trabalho, encontramos agora  edifícios abertos, desenhado com preocupações estéticas e de acolhimento dos utilizadores para as mais diversas actividades. Dois exemplos.



Biblioteca Pública de Guadalajara

Na nova Biblioteca Pública Municipal de Guadalajara, em Espanha, outrora um palácio senhorial, existe um grande pátio interior coberto, mobilado com sofás e mesas de apoio. Nas estantes das paredes em volta estão as novidades e as seleções temáticas e num dos lados uma bateria de computadores disponíveis ao público. Num dos cantos, encontra-se um piano de cauda onde de vez em quando um leitor se senta para tocar uma peça de jazz ou de música clássica que se ouve no segundo piso, que é simultaneamente galeria de exposições e também local de trabalho na Internet, bem como na área contígua do fundo local.

Pátio interior coberto.
Sala de estudo (e de jantares de convívio).
No terceiro andar, uma grande sala de estudo acolhe em silêncio total trezentos estudantes das 9h00 às 21h00 em épocas de exame. Nos dias de festa, como no jantar anual dos cerca de 20 clubes de leitura desta Biblioteca, trezentas pessoas jantam nessa mesma sala e, de seguida dançam pela noite fora ao som de um piano acústico. no jardim interior ou no referido átrio coberto quando o tempo está de chuva. 

Sala polivalente.

Na sala polivalente, ao final da tarde, debatem-se temas atuais: «Iniciativas sociais de dinamização comunitária», «Mães contra a droga», «Crise financeira: origens e evolução». E quando esta se torna pequena para o público que a elas aflui, as sessões são realizadas também no pátio interior.


Pátio interior coberto visto de outro ângulo.
Na muito mais pequena Biblioteca de São Brás de Alportel, em Portugal, instalada no edifício de uma antiga moagem recuperada e adaptada, a sala de periódicos, logo à direita de quem entra, acolhe, pela manhã, os mais velhos que não prescindem da leitura dos seus jornais.
Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel.
Nesta sala são também acolhidos os leitores com limitações motoras, já que o elevador existente não comporta uma cadeira de rodas e, em algumas tardes, uma leitora que gosta de um pequeno órgão que ali se encontra toca peças clássicas que ecoam no átrio e no pátio interior, onde também se celebram muitas festas.
 
Festa do 1º. aniversário do Projeto Aventura.
Às quintas-feiras, entre as 18h30 e as 20h00, o coro municipal, que reúne 40 elementos de cinco nacionalidades, ensaia na sala polivalente um repertório de música clássica, madrigal e folclore de várias línguas europeias.

Foto de grupo do Coro de São Brás.
O clube de leitura também se reúne da sala polivalente.
Na sala contígua, foram os adolescentes de São Brás que «obrigaram», com as suas conversas intermináveis, os seus telemóveis, os seus fones e as suas mochilas coloridas, a transformar a ex-sala de audiovisuais, agora com o acesso generalizado à Internet praticamente sem uso, na «sua» sala de leitura e de estudo.

Em 2008, Hannu Uusi-Videnoja, à época embaixador da Finlândia no Brasil, afirmava já, a propósito da extraordinária aposta do estado nas bibliotecas públicas finlandesas que o respetivo papel estava «a mudar rapidamente nesta nova sociedade da informação. Entre os novos desafios encontra-se a necessidade de ensinar os cidadãos a pesquisar, a avaliar, a comparar, a combinar e a usar adequadamente a informação disponível.»

Segundo Uusi-Videnoja, para a Finlândia a biblioteca pública «é um centro cultural local, um portal de qualidade que disponibiliza capital cultural e intelectual ao público, que pode usá-lo conforme as suas necessidades seja na biblioteca, seja através Internet.» Este embaixador filandês afirma que uma biblioteca municipal, seja numa área residencial ou numa pequena cidade, deve organizar-se de modo a proporcionar à sua comunidade:

  • uma sala de estar e de convívio;
  • o acesso à cultura e à informação;
  • a possibilidade de recuperação de informação independente;
  • uma rede de serviços públicos e privados;
  • múltiplos eventos e serviços culturais.

Para saber mais.
Com efeito, «de acordo com a visão adoptada (em 2003) na Estratégia das Bibliotecas para 2010, a biblioteca pública na sociedade finlandesa é uma instituição activa e eficaz, e de fácil acessibilidade à consulta pública. Encontra-se aberta a todos os interessados, o que fortalece a democracia. Transmite a herança cultural, apoia a construção de uma sociedade multicultural e promove o espírito comunitário. Oferece um ambiente de aprendizagem, apoiando pessoas de todas as idades e promove as competências necessárias a tornar os meios de comunicação acessíveis a todos».

Mas este documento vai ainda mais longe ao afirmar que, «os direitos à informação e à criatividade são considerados direitos humanos básicos. O direito à informação é intrínseco ao exercício pleno da cidadania e igualmente indispensável ao desenvolvimento da criatividade, a expressão própria do ser humano.»

Jens Thorhauge, Director Geral da Danish Agency for Libraries and Media, afirmava igualmente, em 2010, que a grande mudança recente na utilização das Bibliotecas Públicas dinamarquesas era a vivência que dela fazem as pessoas que a utilizam: ler, trabalhar, aceder à Internet, frequentar cursos, presenciais ou a distância, encontrarem-se, verem exposições, participarem em eventos culturais os mais diversos, constituem exemplos desta nova mudança.

Para saber mais.
Thorhauge sublinha que cada ano é mais diversificado o público que vai à Biblioteca Pública para participar nas atividades que esta oferece, as quais são também por seu turno cada vez mais dirigidas a públicos diferentes: jardins de infância, crianças com deficiências, clubes de leituras, iniciativas cívicas de apoio a minorias, serviços para empresas... Esta nova apropriação das bibliotecas pelo seu público é reveladora das potencialidades deste equipamento cultural: um verdadeiro centro cívico que oferece atividades culturais, sociais e educacionais. A chave desta mudança reside na assunção, por parte das bibliotecas, de uma atitude proativa alicerçada nas perguntas:


«precisa de ajuda?
 conhece o fundo antigo?
quer juntar-se ao debate?»

Em 2010, um Comité instituído com o objetivo de conceber o papel das Bibliotecas na sociedade do conhecimento e na necessidade de educação ao longo da vida, enuncia os princípios por que a Biblioteca Pública dinamarquesa se deve guiar: ser aberta à comunidade e cheia de vida, disponibilizar uma biblioteca digital e desenvolver múltiplas parcerias.


Também a NAPLE (National Authorities on Public Libraries in Europe) assinala que «o espaço biblioteca pública se encontra em considerável mudança na primeira década do século XXI»... Para além de «uma forte presença em termos de património edificado e de se tornar também cada vez mais central no desenho do tecido urbano, visível na construção de novas bibliotecas e na remodelação de outras, a Biblioteca Pública é um espaço agora descentrado da coleção e intensamente focado nos utilizadores, entrecruzando e reforçando serviços físicos e virtuais».

Criada há cerca de uma década com o objetivo de promover no seu conjunto as bibliotecas públicas europeias, a NAPLE tem-se evidentemente debatido com os problemas e as assimetrias inerentes ao estado da União Europeia. Contudo, a sua mais recente iniciativa: promover uma discussão em torno destas novas Bibliotecas Públicas, através da criação de uma base de dados sobre edifícios de bibliotecas que reúna os melhores exemplos das mais recentes bibliotecas europeias, pode sedimentar uma importante discussão em torno desta nova e substantiva mudança. Ainda em construção, esta base de dados pretende incluir um grande número de países que anunciaram já a sua vontade de a integrar. Segundo a NAPLE, «esta mudança está a ter lugar em toda a Europa e apela a novos conceitos e ideias».