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sexta-feira, 27 de julho de 2018

«Leitura e felicidade»


Luís Santos, Sónia Almeida e Vera Oliveira


A relação entre «leitura e felicidade» é muitas vezes referida como intrínseca, nomeadamente no contexto do trabalho em promoção da leitura. Sendo um tema muito caro aos bibliotecários e aos grandes leitores (os que leem cerca de 30 livros por ano[1]), é hoje em dia consensual que os benefícios da leitura se traduzem em:
  • Aumento dos níveis de concentração, de memorização, de disciplina mental e pessoal;
  • Significativa melhoria da criatividade, da interação, da autoconfiança e do bem-estar;
  • Ampliação do vocabulário, e consequentemente da visão do mundo e ainda do despertar para novas ideias e valores culturais.
Na DGLAB, temos vindo a debater esta relação idealizada há mais de 20 anos (1996) e não podemos deixar de sublinhar aqui o quanto é em geral romantizada e mesmo, do nosso ponto de vista, redutora e subjetiva.

No âmbito do trabalho das Bibliotecas de Leitura Pública tivemos pois de ir sistematizando a definição destas noções, de modo a torná-las operativas, ou seja, para sabermos do que estamos exatamente a falar, mas também de maneira a que estas noções nos orientassem para objetivos concretos, exequíveis e adaptados ao tempo em que vivemos.

Assim, para nós, a noção de leitura é a da leitura do mundo, e de cada um de nós no mundo em que vivemos. Assim sendo, a leitura ultrapassa em muito a leitura de livros, de periódicos, de documentação multimédia e digital.

A leitura do mundo integra a leitura funcional (os horários da CP, as bulas dos medicamentos, o IRS…), a leitura dos meios de comunicação, a leitura das artes (do cinema, do teatro, da pintura…), a leitura da paisagem natural: a montanha, a planície, a orla marítima e da humanizada: a leitura das aldeias, vilas e cidades, a leitura dos sistemas em que nos integramos (políticos, sociais, económicos…).

A leitura de nós próprios implica, por seu turno, a interrogação pessoal, e o questionamento de quem somos e do que fazemos aqui e agora. Implica a consciência dos nossos estados espirituais: crenças, imagens e memórias mentais, visuais, auditivas, olfativas, sonoras, tácteis, intenções, emoções e o conteúdo do pensamento em geral: conceitos, raciocínios, associações de ideias[2]. Tão complexa quanto a leitura do mundo, a leitura de nós e do nosso relacionamento com os outros é aprendida na família, na escola, mas também através da religião e de inúmeras práticas de introspeção, de reflexão e de meditação, da psicoterapia, da psiquiatria e das terapias cognitivo-comportamentais. E da frequência da Biblioteca Pública.

A noção de felicidade não é menos complexa. Debatida pela filosofia clássica e só muito recentemente pela filosofia contemporânea, mas sobretudo pela psicologia positiva que aborda o funcionamento positivo da personalidade, o bem-estar subjetivo e o ensino da resiliência[3]: constitui uma noção que também necessita de ser definida para que saibamos do que estamos a falar. A felicidade é, como todos sabemos, subjetiva, pessoal, social, cultural. De entre os especialistas que mais recentemente se têm debruçado sobre esta noção, encontram-se Martin E. P. Seligman, psicólogo americano, responsável pelo Centro de Psicologia Positiva, professor da Universidade da Pensilvânia e Ex-Presidente da Associação Americana de Psicologia e Mihaly Csikszentmihalyi (psicólogo americano de origem húngara, professor e responsável pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago).



Para este último, as pessoas são mais felizes quando estão num estado que denomina de «fluxo» (de fluir), um estado de concentração completa numa determinada atividade ou situação. Um estado ótimo de motivação intrínseca, em que a pessoa se encontra imersa no que está a fazer. Uma sensação que (quase) todos já experienciámos e se caracteriza por uma sensação de grande liberdade, de prazer, de compromisso e de habilidade/capacidade durante a qual as sensações temporais (o tempo, a alimentação, o eu) são ignoradas. Resumindo, o estado de fluxo pode descrever-se como um estado em que a atenção, a motivação e a situação se conjugam, resultando numa harmonia produtiva que se retroalimenta. Para se conseguir este estado é necessário alcançar-se um estado de equilíbrio entre o desafio inerente à tarefa e a habilidade de quem a realiza[4].

Neste sentido, para nós, leitura e felicidade unem-se e traduzem-se no que Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, reclama como o exercício da cidadania, por parte de cada um de nós: a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade, oralmente e por escrito. De modo a refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmos a vida que vivemos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, de saber ler, escrever e falar em público[5].

Por isso creditamos que o papel da Biblioteca Pública pode não ser único, mas é muito mais do que apenas o lugar e o meio de transmissão do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca é um lugar de aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar de vitalidade psicológica é física: Mens sana in corpore sano, uma das principais características das bibliotecas resilientes, como tão bem nos explica a bibliotecária americana Karen Muro em «Resiliencia frente a sostenibilidad: el futuro de las bibliotecas»[6].


* * * 

Sendo estas as nossas linhas orientadoras de ação, como pode a Biblioteca Pública trabalhar para oferecer e desenvolver na sua comunidade este tipo de leitura e este tipo de felicidade? Não podemos seguramente contentarmos-nos, como até agora, com uma penetração máxima de 15% na comunidade que servimos.

Em primeiro lugar, trabalhando para conhecer profundamente a comunidade em que nos integramos, trabalho este sem o qual não é possível fazer o que é exigido a uma biblioteca pública segundo os critérios internacionais do nosso tempo. Sendo o nosso país muitíssimo diversificado, também não será possível transpor tal e qual todas as melhores práticas de que temos conhecimento sem as adaptar devidamente.

De todo o modo, a Biblioteca Pública terá necessariamente de sair da sua casa. Não poderá também prescindir de uma a equipa motivada para a inovação. E terá ainda de encontrar parceiros. Saindo da Biblioteca, como já foi referido, mas também mantendo uma observação e um diálogo constantes com os utilizadores, a equipa da biblioteca pode adquirir informação pertinente sobre as necessidades e os problemas do seu público.

Nos EUA é comum hoje em dia recorrer-se ao design thinking[7]. Na realidade, trata-se apenas de deixar de fazer o que sempre fizemos e de falarmos com os utilizadores. Não se trata de pensarmos em novos serviços que possamos acrescentar à Biblioteca, mas sim de interagirmos ativamente com os utilizadores. Se o fizermos como é suposto, seremos obrigados a criar toda uma nova estratégia com base nas novas dinâmicas que deste modo introduziremos na Biblioteca.

Para repensarmos a nossa atividade, temos de falar com as pessoas nas suas próprias casas, no seu ambiente. Temos de conhecer as suas necessidades e os seus desejos. Só assim obteremos informação sobre os nossos utilizadores: os diferentes grupos de utilizadores em que se inserem (estudantes, famílias, investigadores, reformados…) e sobre os nossos não utilizadores. Não se trata já de, como afirma a bibliotecária Cathy King, colocar a Biblioteca no coração da comunidade, mas sim de colocar a comunidade no coração da Biblioteca[8].

Em todo o mundo, as Bibliotecas Públicas são cada vez menos definidas pelo número de livros que exibem nas estantes e cada vez mais por serem espaços vivos onde as pessoas convivem. Nos países desenvolvidos, as Bibliotecas sempre foram conhecidas por se alinharem com o que as pessoas querem de facto, como aconteceu no que respeita às novas tecnologias em que as Bibliotecas deram o exemplo ao serem as primeiras a oferecerem computadores ao público e formação nesta área aos seus utilizadores.

Presentemente, as pessoas estão cada vez mais interessadas em aprender diferentes matérias e atividades e pretendem uma interação social com possibilidade de partilha de conhecimentos com outras. As Bibliotecas são cada vez mais um lugar de encontro, de relacionamento e de trabalho entre utilizadores e entre estes e bibliotecários, que temos de facilitar e oferecer. Para tal necessitamos de novas competências, bem como de adaptar os espaços físicos de que dispomos às necessidades dos novos grupos que queremos servir.

Esta nova Biblioteca Pública do século XXI é pois muito mais do que o tradicional serviço baseado em livros[9] e pode tornar-se num centro de troca de conhecimento e de cultura, onde as pessoas quererão muitas horas. O nosso objetivo é servir toda a comunidade, com certeza mais de 50% de penetração na nossa comunidade.


Um exemplo frutuoso: as parcerias

Para tal é também necessário estabelecer parcerias com outras instituições públicas locais, oferecendo um misto de serviços à comunidade. Fazendo-o como uma forma de dar a conhecer outros serviços públicos ou de partilhar o espaço com essas outras instituições (Biblioteca Municipal de Avis: serviços de educação e apoio psicológico).

Parcerias que oferecem serviços públicos fiáveis, como orientação e apoio na obtenção de cartões de cidadão e de passaportes, de cartas de condução, de casamentos e ainda apoio a serviços mais pessoais como os impostos, o divórcio, a educação das crianças…

Parcerias com hospitais e centros de saúde que permitam oferecer serviços médicos simples ou formação básica. Tal é o caso Enfield Council’s Ordnance Road Library inglesa que combina os serviços da Biblioteca e o acesso público à saúde, mas também o da nova Unidade Móvel de Anadia que se baseia no trabalho da Bibliomóvel de Proença-a-Nova, ou o caso do apoio ao Hospital do Fundão disponibilizado pela Biblioteca Municipal do Fundão.

Parcerias com os Serviços de Apoio a Crianças em Risco que formalizem este tipo de apoio aos mais jovens, com objetivos, públicos-alvo e contrapartidas bem definidos, de modo a que as bibliotecas não sejam meras babysitters de substituição (Biblioteca Municipal de Anadia.)

Parcerias com estabelecimentos de ensino superior ou Centros de Formação que permitem oferecer formação creditada a diferentes tipos de público: professores (Biblioteca Municipal da Batalha, Biblioteca de Mondim de Basto), adultos (Biblioteca Municipal de Penalva do Castelo)...


Parcerias com organizações e empresas privadas, estas, evidentemente mais difíceis de estabelecer, constituem todavia um território de oportunidades a fomentar (a parceria Padrinhos da Leitura, em Moura, nada mais é do que o convite a pequenos empresários locais para oferecerem a uma turma do 1º ciclo, anualmente, um livro a cada criança, em troca de um diploma institucional). 

Parcerias para obtenção de serviços de cafeteria que podem ser simples máquinas de bebidas e sanduiches ou que podem funcionar muito melhor do que os cafés das redondezas, como é o caso da Biblioteca Municipal de Tavira e da Suzzallo Library USA que abriu recentemente uma nova cafeteria em parceria com Starbucks. Ambos os casos atraem um número considerável de pessoas, muitas das quais não eram utilizadoras da Biblioteca.

Parcerias com empresas loca
is que possam oferecer workshops e formação especializada: a Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão oferece formação especializada sobre permacultura (produção, acondicionamento e mercado) a cerca de 60 agricultores que nunca antes tinham entrado na Biblioteca e que solicitaram posteriormente mais formação.

Temos de nos adaptar e de abraçar a mudança. De modo a transformarmos a Biblioteca num espaço comunitário (da comunidade) onde as pessoas possam obter a informação de que necessitam, resolver um problema com que se debatem, ler tranquilamente um livro, participar num workshop, ver uma exposição, tomar um café, fruir de um tempo em família, combinar um encontro com amigos, namorar, estudar para os exames, redigir uma tese … Um lugar de aprendizagem e de troca de ideias, de bem-estar, onde com toda a certeza nos sentiremos… felizes! 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Aprender a comunicar em público: ler em voz alta e contar (*)

A partir de uma certa altura da vida, damo-nos conta de que domínio da leitura em voz alta e da oralidade são duas competências reservadas a uma elite de profissionais qualificados:

Jornalistas,
políticos,
apresentadores, 
comentadores,
contadores...
A maioria de nós não se encontra devidamente habilitada para o fazer, o que conjuntamente com a incapacidade de nos exprimirmos corretamente por escrito, se traduz numa das grandes falhas da nossa qualidade de vida e da prática efetiva da cidadania em Portugal.

Porque o domínio da oralidade e da escrita permitem-nos ser mais conscientes em relação a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, o que as limitações da nossa democracia demonstram. E, no entanto, a escrita e a oralidade são meras técnicas que se aprendem facilmente na infância e na juventude e mesmo ao longo da vida.

O exemplo mais conhecido desta afirmação são as TED Talks, TED: Ideas worth spreading. Promovidas pela fundação americana sem fins lucrativos, TED, contam-se por milhares as conferências destinadas à divulgação de todo o tipo de ideias na Europa, Ásia e Estados Unidos já disponíveis online.


«TED é uma comunidade global, aberta a pessoas de todas as disciplinas e de todas as culturas, que procura aprofundar o conhecimento do mundo. Acreditamos apaixonadamente no poder das ideias para mudar atitudes, vidas e, em última instância o mundo.» [1984, 2006 (online)…]

Catherine Bracy
Why good hackers make good citizens.
Roselinde Torres
What it takes to be a great leader.
Maya Penn
Meet a young entrepreneur, cartoonist, designer, activist. 
Harish Manwani
Profit’s not always the point.
Diana Nyad
Never, ever give up.
Rose George
Inside the secret shipping industry.
Para ser convidado a falar numa Ted Talk apenas é necessário ter uma ideia inovadora e querer partilhá-la com outros. Nas Ted Talks falam pessoas dos mais diversas idades e proveniências. 





Com certeza que falar de uma ideia em que acreditamos e que levámos à prática constitui de per si uma importante motivação para falar em público.Contudo, se atentarmos bem, todos estes conferencistas são apoiados por uma sofisticada técnica multimédia que lhes permite dominar um anfiteatro cheio de centenas de espetadores. Uma parte das técnicas de apoio, evidentemente.




De entre as mais diversas técnicas de aprendizagem da arte de falar em público, contam-se indiscutivelmente o ensino da leitura em voz alta e o da narração oral. Há quase um século arredadas da escola e da família, estas duas práticas deveriam privilegiar a poesia e os contos. 

Ler em voz alta e contar um conto em público implicam expormo-nos muito mais do que apenas aprender a colocar a voz, a exercitar a memória ou a controlar a exposição física perante uma audiência. O domínio de si mesmo e o domínio da audiência são as grandes conquistas técnicas a empreender, quando dezenas, centenas, mil pares de olhos nos fitam.




Porque prender a atenção de um público durante 15 a 20 minutos não é tarefa fácil, mas não deixa de constitui um treino como muitos outros e, posto em prática, pode torna-se mesmo numa dependência. Temos inúmeros exemplos disso, do star system à política nacional, os famosos 15 minutos de fama de que Andy Warhol fala e a que todos aspirariam, «a celebridade instantânea», podem ser tão poderosos quanto uma droga.



Nestes casos, pode acontecer o pior: perder-se o controle do auditório e o público deixar de nos ouvir. O que acontece, em primeiro lugar porque aquele que fala para um público deixou também de o ouvir. E saber ouvir é hoje outra competência não desenvolvida, nem treinada: por isso também a maioria das pessoas não sabe ouvir.


Psicanalista, escritor e pedagogo brasileiro.
Ora, o treino da escuta é tanto mais necessário quanto vivemos num mundo barulhento, tumultuoso, audiovisualmente hiperestimulante, dominado pelas técnicas agressivas e impositivas de publicidade que nos rodeia. Neste contexto é evidente que também tínhamos de deixar de saber ouvir. Treinar a escuta e o silêncio ativos oferecem-nos concentração e aquietamento interior. E são tão necessários à introspeção e ao conhecimento de nós próprios como à do mundo que nos rodeia.

Tanto a leitura em voz alta como a narração oral implicam, entre outros aspetos, uma apropriação individual e subjectiva do texto, a respetiva interiorização tanto no que concerne ao sentido como aos sentimentos que o texto nos provoca. A leitura em voz alta parece-nos, contudo, uma técnica mais fácil do que a da narração oral, na medida em que aquela nos fornece a segurança do apoio textual. A narração oral implica um esforço mental e emocional provavelmente superior: um conto não se decora, embora se decorem partes do conto e a ligação entre as partes, bem como a ênfase nos pontos de viragem ficam, como a improvisação, por conta de cada um...


National Storytelling Festival, Jonesboroug, Tennesee.
Maratón de los Cuentos de Guadalajara. 

Uma das características da nossa espécie é a de nos contarmos em permanência histórias e narrativas mais ou menos breves, à nossa medida e à medida do nosso quotidiano. A fruição estética e ética da literatura permitem-nos elevar o nosso nível de conhecimento tanto racional como emocional, tanto sobre nós próprios como sobre o meio em que vivemos. Como a psicanálise há um século já nos explicou, o homem que conta humaniza-se e, se se empenhar, ilumina a obscura matéria de que são feitos os sonhos, os pesadelos, os medos e as utopias. 


Porque os mitos e os verdadeiros contos, que atravessam a história da nossa humanidade, ensinam-nos, a tomar o comando das nossas vidas nos momentos mais difíceis e cruciais da nossa existência e da da nossa comunidade. Pautam-se por valores como a identidade, o sentido de pertença, a solidariedade, a partilha, a coragem, a criatividade... Através da associação de imagens mentais, de sensações e de sentimentos mais ou menos inconscientes, ao som milenar da voz humana, a voz que sussurra, que chora e grita, que embala, que canta, que conta. Que nos conta.


(*)  Este post teve uma origem numa comunicação que elaborei para o II Encontro Literário de Leitura em Voz Alta, realizado no Funchal pelo extraordinária Associação Contigo Teatro, em 21 e 22 de março deste ano. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Portugal, 2013: por que tanto precisamos hoje das Bibliotecas Itinerantes! *

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


Hola a todos!

O meu nome é Vera Oliveira, sou uma bibliotecária de leitura pública sénior e trabalho no apoio às Bibliotecas Públicas, a partir da administração central, mais concretamente na Direção-Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas. Sou portuguesa, tenho 57 anos e tive a sorte de poder dedicar a maior parte da minha vida profissional a um trabalho de que gosto muitíssimo.




Não «tenho», como todos vocês, nenhuma biblioteca pública, nem fixa, nem itinerante. Mas sou uma bibliotecária pública por vocação e, também enquanto cidadã, considero um pouco minhas todas as Bibliotecas Públicas. Nelas sinto-me em casa. E, como a maioria dos bibliotecários portugueses, tenho as Bibliotecas Itinerantes no coração.


Foto de aqui.

Em Portugal, não deverá haver muitos portugueses maiores de trinta e cinco anos que não saibam o que é uma Biblioteca Itinerante. Tivemos essa sorte! Num dos países mais pobres e analfabetos da Europa da época, uma fundação, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), investiu numa Rede de Bibliotecas Itinerantes (e depois também fixas) que cobriu todo o território nacional entre 1960 e 1990.

Um, de entre muitíssimos outros exemplos: o ex-Secretário de Estado da Cultura, jornalista e escritor Francisco Viegas, 51 anos.



Foto de aqui.
Na aldeia do Douro onde nascera e onde em adolescente ia passar férias, uma das coisas que tínhamos era a carrinha da Gulbenkian, algo mítica para minha geração. O senhor Sousa deixava-nos levar da carrinha três livros por pessoa. Eu levava a minha tia, porque assim trazíamos seis. E foi nessa altura, em 1975, 1976 que li Cem anos de solidão pela primeira vez. À minha volta mudou o interesse pelos livros, e o facto de ler com disponibilidade marcou-me bastante.1

As Bibliotecas Itinerantes FCG  entre 1958  e 1982

A primeira experiência, Cascais - 1953.

Bibliotecas FCG, a imagem de marca.
Exemplar restaurado.
Último modelo FCG a funcionar.
Os números2 de que dispomos ainda hoje são impressionantes: 

Número de Bibliotecas Itinerantes da FCG:
1958 – 15
1961 – 47
3
1984 – 59 (e 166 Bibliotecas fixas)
Número de livros requisitados:1958 -1962: 8 675 774
1968-1972: 27 191 250
1978-1982: 22 573 900
                 TOTAL (1958-1982): 106 033 684

Número de leitores atendidos:
1958-1962: 2 571 212
1968-1972: 7 890 879
1978-1982: 7 346 573
                TOTAL (1958-1982): 31 977 700

Os livros adquiridos foram na ordem de milhões. Em 1965, a FCB tinha já então comprado mais de 1 700 000 livros para todas as suas bibliotecas
.4

A acrescentar a esta dádiva, o trabalho da FCG em Portugal selou uma «ligação» entre as Bibliotecas Itinerantes e as Bibliotecas Públicas Municipais, que no futuro facilitaria a gestão do pessoal e da documentação. Ao ser iniciada a construção da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (1987), estas novas e modernas Bibliotecas procuraram sempre que possível integrar as da FCG, tanto as fixas como as itinerantes.

Como já aqui referi, na transição do milénio, a reivindicação e a construção em vasta escala de novas bibliotecas públicas declaradamente abertas a todos os cidadãos, em Portugal e na Europa, foi acompanhada de uma inequívoca mudança em relação à tradicional missão cultural e de ensino, de matriz anglo-saxónica.




As novas mudanças

Local de múltiplos eventos e encontros os mais diversos, a polivalência cultural e cívica é agora a marca indelével das Bibliotecas Públicas, cada vez mais versáteis e disponíveis para acolher todo o tipo de públicos e para apoiar a sua comunidade e fortalecer a democracia.5

Esta nova biblioteca pública, para além de lugar de aprendizagem, tornou-se assim também um lugar para se estar e para se (con)viver. Distante das grandes bibliotecas centradas no empréstimo massivo, sem espaços de estudo e sem utilizadores durante as horas de trabalho, encontramos agora edifícios abertos, desenhados com preocupações estéticas e de acolhimento dos utilizadores para as mais diversas atividades.



Dois exemplos:


A Biblioteca de São Brás de Alportel, Portugal

Fachada exterior.
Reunião do clube de leitura.
Foto do Grupo Coral de São Brás que ensaia na Biblioteca.
Pátio interior da Biblioteca: festa do 1º. aniversário do Projeto Aventura.

A Biblioteca de Pública Provincial de Guadalajara, Espanha


Palácio do Dávalos, fachada exterior.
Sala de estudo e de leitura: 300 lugares.
Jantar anual dos clubes de leitura na sala de estudo (2013).
Baile dos clubes de leitura no pátio interior (2013).
Assim, as Bibliotecas Públicas têm vindo a tornar-se num verdadeiro centro cívico que oferece atividades culturais, sociais e educacionais. Intensamente focada nos utilizadores, entrecruza e reforça serviços físicos e virtuais. Aqui, as pessoas leem, trabalham, acedem à Internet, frequentam cursos, presenciais ou a distância, encontram-se, veem exposições, assistem a conferências e debates, e participam em eventos culturais de todo o tipo.6,7,8,9

Tudo o que acabo de referir se aplica hoje mais do que nunca às Bibliotecas Itinerantes, a melhor extensão cultural da Bibliotecas Públicas. E, se cada vez mais, se fala na importância das Bibliotecas Públicas e das suas itinerantes como forma de revitalização do meio rural, elas são igualmente importantes na humanização dos grandes concentrações suburbanas em torno das grandes cidades, onde o desregulamento do parque habitacional, a pobreza e a violência constituem a matriz da vida quotidiana.

Em Portugal, mais de 60% do território nacional encontra-se sob ameaça da desertificação humana (dados de Junho de 2013)10, tendo a área suscetível de desertificação do território continental português crescido em 75% ao longo dos últimos dez anos (2011)11.


Colmeal, Figueira de Castelo Rodrigo: a primeira aldeia abandonada em Portugal (ca 1960).
Sem os seus guardiões, os agricultores e a população rural,12 este abandono do território traduz-se na desestruturação das famílias enquanto unidades produtivas e na diminuição da qualidade de vida. O abandono do cuidado dos campos e da floresta conduz, por sua vez, ao aumento das possibilidades de erosão, à diminuição da produtividade dos solos e à redução drástica da biodiversidade.

Mapa do (des)povoamento do território português.
Por seu turno, o correspondente crescimento da pobreza urbana devido à permanente migração para as grandes cidades potencia o crescimento suburbano descontrolado, o aumento da poluição e os problemas ambientais urbanos, para além da miséria e da violência sociais.13


Na cidade.
Degradação urbana.
A análise comparada dos objetivos da Rede de Bibliotecas Itinerantes Gulbenkian (anos 1960-1990) e dos objetivos para as Bibliotecas Itinerantes atualmente definidos pela IFLA mostra-nos a assunção progressiva deste salto qualitativo na missão das Bibliotecas Itinerantes.

Em 1960, a Rede de Bibliotecas Gulbenkian tinha por objetivo «cobrir todo o território nacional, dirigindo-se ao:

1. público de menor acesso à educação e cultura que habitava
2. as regiões mais desfavorecidas, e procurava
3. chegar a todas as faixas etárias.

Eram objetivos da Rede de Bibliotecas Móveis da Fundação Calouste Gulbenkian:
1. promover e desenvolver o gosto pela leitura,
2. elevar o nível cultural dos cidadãos.


Como ? Através de …

1. livre acesso às estantes,
2. empréstimo domiciliário e
3. gratuitidade do serviço.»

Os objetivos da IFLA para as Bibliotecas Itinerantes são os mesmos dos das Bibliotecas Públicas e encontram-se enunciados no Manifesto da Unesco que todos conhecemos. A evolução é EVIDENTE:

1. Criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância;
2. Apoiar a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis;
3. Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;
4. Estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens;
5. Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas;
6. Possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo;
7. Fomentar o diálogo intercultural e a diversidade cultural;
8. Apoiar a tradição oral;
9. Assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local;
10. Proporcionar serviços de informação adequados às empresas locais, associações e grupos de interesse;
11. Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;
12. Apoiar, participar e, se necessário, criar programas e atividades de alfabetização para os diferentes grupos etários.

Há, todavia, outros objetivos não explícitos que os bibliotecários móveis, talvez mais do que todos os outros bibliotecários, conhecem bem:

  • Cuidar dos outros; 
  • Abrir horizontes; 
  • (Re)construir uma identidade local transgeracional; 
O que implica também contribuir para humanizar o território, seja através do incentivo e do apoio ao regresso ao mundo rural14, seja na intervenção em bairros urbanos degradados e, para humanizar o quotidiano, construindo redes de entreajuda e de afetos.

Assim, em 2013, os novos serviços da Bibliotecas Itinerantes, dando já como adquiridas a prática da educação informal e 
a ligação à Internet, devem abranger:
  • A agilização de toda a informação e comunicação entre a população e a autarquia, incluindo pagamento de serviços, licenças... 
  • A integração de atividades diversificadas de extensão cultural: os projetos «ciência viva», a narração oral, a música, etc. 
  • A revalorização da tradição popular concelhia em todas as suas valências: literatura oral, usos e costumes, gastronomia… através da recolha de relatos dos mais velhos e com base em princípios e critérios de investigação a partir de ligação às universidades. 
Algumas bibliotecas itinerantes, como a de Nuno Marçal, bibliotecário em Proença-a-Nova, já o fazem! As fotografias que publica no seu blogue disso dão testemunho:


Ir onde ninguém vai,
assumindo-o como um compromisso!
Mostrar o que nunca se viu
e ensinar a usar as novas tecnologias.
Valorizar as tradições culturais,
recolhê-las,
promovê-las e divulgá-las.
Há, contudo, uma outra valência que deveria ser urgentemente experimentada, pelo menos em Portugal: a «fusão» entre bibliomóveis e unidades móveis saúde (UMS) existentes no meu país.

Em Portugal, os fundos comunitários financiaram na década de 2000 os municípios rurais, para aquisição e funcionamento de bibliotecas móveis e de unidades móveis de saúde. A estas compete a prestação de cuidados de saúde primários, na área clínica e de enfermagem, apoio domiciliário, saúde escolar, vacinação e vigilância do estado de saúde de comunidades que vivem isoladas.
15



UMS de Sernancelhe.
UMS de Arouca.
UMS de Lagoa.
UMS de Borba.
Com o aprofundar da crise, muitas destas carrinhas, bem como algumas das bibliomóveis, foram desativadas alegadamente pelos custos envolvidos na sua manutenção, sobretudo os relativos ao pagamento de salários dos técnicos de saúde. Incentivar a reunião destas duas valências numa única carrinha deveria ter por base a noção de cuidados a prestar à comunidade e ser realizada a partir de uma reflexão conjunta entre os profissionais envolvidos que estudassem a melhor forma de integração das duas valências numa única unidade móvel. Este dois em um seria aceite pelas populações como uma benção e potenciaria as valências dos dois tipos de carrinhas: Mens sana in corpore sano!


A noção de «cuidados»

A noção de «cuidados» é uma noção que só agora começa a ser estudada e avaliada em termos económicos e sociais. Abrange as intervenções que têm por objetivo manter, atender, reequilibrar ou cuidar da família e da comunidade. Na prática são os trabalhos invisíveis e as tarefas obscuras repetidas todos os dias da vida (na sua maioria dispensados por todas as mulheres em toda a parte do mundo) que têm garantido a sobrevivência das sociedades humanas e da própria vida: os trabalhos de criação (crianza), de manutenção da capacidade produtiva de um terreno, de regeneração de um território devastado, de transmissão de saberes sobre a saúde ou sobre alimentos….

Estes trabalhos de cuidados constituem esteios (puntales) de vida e são chaves para a sustentabilidade.… Realizados sem horários, em permanente e incessante luta contra a corrente de todo o tipo de carências: desordem, sujidade, falta de alimentos, abandono afetivo e efetivo.16

Uma nova noção bem conhecida dos bibliotecários itinerantes!

Em Portugal, as Bibliomóveis sempre cuidaram das populações: com os livros levavam notícias e informações regionais e nacionais, transportavam encomendas entre povoações distantes, levavam cartas de amor às escondidas. Hoje, muitos dos bibliotecários itinerantes também o fazem, de outras formas e com outros meios.

As bibliotecas itinerantes acompanharam os tempos, adaptaram-se e modernizaram-se, tecendo desde sempre redes de leituras e de afetos nos mais distantes e isolados concelhos portugueses. Em pequenas carrinhas (o que lhes traz duas vantagens: percorrer as mais difíceis estradas do nosso país e serem conduzidas por qualquer pessoa que detenha uma simples carta de condução), as bibliomóveis portuguesas oferecem centenas de itens (entre livros, revistas, cds e dvds) e acesso à Internet. Mas, sobretudo, vão aos confins mais solitários e aos locais mais deprimidos do nosso país o que significa que cuidam das populações que aí vivem.

Os estudos realizados sobre a relação custos-resultados da atividade das carrinhas itinerantes revelam altos índices de produtividade, ou seja, em termos económicos, o retorno do capital investido numa bibliomóvel só aparentemente pode ser considerado elevado (Cf. Alberto Pérez Tapia e Mercedes Santiago Calvo).17 Para além dos apoios concedidos por diferentes parceiros locais, como o dono do café, a coletividade local ou a escola…, estes autores sublinham um facto que os decisores políticos não costumam ter em conta: los bibliobuses también crean espacios públicos donde reunirse… y, como se diz em espanhol,… hacer comunidade.

Quanto vale hacer comunidad?

A manutenção do trabalho dos bibliobuses implica:

1. um investimento financeiro inicial e de manutenção, por parte do poder político,

2. um investimento em estudo, trabalho, reflexão e criatividade permanentes, por parte das respetivas equipas técnicas,
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3. amor ao que se faz e espírito de missão!

Necessitamos, agora mais do que nunca, de estudar e de trabalhar muito, de reunir esforços e de partilhar projetos. E de… uma grande dose de sonho, de preferência em formato XXXL, o formato dos sonhos verdadeiramente importantes na vida.

Jesús Martín-Barbero.
Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, afirma que o exercício da cidadania requer, por parte de cada um de nós, a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade. Este é o único modo de refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmo a vida que vivemos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, de saber ler, escrever e falar em público.18

Por isso, estou segura de que, mais do que apenas o lugar e o meio de transmissão do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca Pública e a sua melhor extensão móvel, a Biblioteca Itinerante, são um lugar de aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar de vitalidade psicológica é física: Mens sana in corpore sano! , uma das principais características das bibliotecas resilientes, como tão bem nos explica a bibliotecária americana Karen Muro em «Resiliencia frente a sostenibilidad: el futuro de las bibliotecas».19

Na história das Bibliotecas Itinerantes, tudo começou com um sonho: 
«levar livros a todos em todo o lado».

Dos países mais desenvolvidos aos mais carenciados, hoje como há 100 anos atrás, os bibliotecários itinerantes continuam a sonhar agora em:
«levar a cidadania a todos em todo o lado»! 

Queridos bibliotecários mobiles, españoles e portugueses, muchísimas gracias por «escutar-me» desde Lisboa.


Vera Oliveira








18 de Outubro de 2013

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Nota préviaPost redigido a partir da comunicação apresentada ao 6º. Congresso de Bibliotecas Mobiles da ACELBIM: Burgos, 18 -21 de outubro de 2013, no qual não me foi possível estar presente.


Notas e bibliografia

1 Maxim Portugal, Jul/Ago 2013, p. 53.

2 Boletim Cultural: Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas. Vinte e cinco anos ao serviço da leitura. Fundação Calouste Gulbenkian, VI série, nº 2, Junho de 1084.

3 http://pt.wikipedia.org/wiki/Bibliotecas_Itinerantes_da_Funda%C3%A7%C3%A3o_Calouste_Gulbenkian

4 http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/wp2004/WP1-2004.pdf

5 http://www.finlandia.org.br/public/default.aspx?contentid=124121.

6 http://www.libraries.fi/en-GB/libraries/

7 http://slq.nu/?article=denmark-the-public-libraries-in-the-knowledge-society

8 Para saber mais: http://www.bs.dk/publikationer/english/library_policy/

9 http://napleblog.wordpress.com/about/

10 http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=3269526

11 http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=2077793 e http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/ei/unccd-PT/event/docs-semin/semin-iber

12 http://www.publico.pt/ciencia/noticia/perito-defende-que-combate-a-desertificacao-deve-ser-um-servico-pago-1387075

13 http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/84.pdf

14 http://vimeo.com/42412852 terra dos sonhos

15 http://www.arsalentejo.min-saude.pt/saudepublica/CuidadosProximidade/UnidadesMoveisSaude/Paginas/UnidadesMoveisSaude.aspx 

16 Yaro Herrero, Fernando Cembranos e Marta Pascual (coord.) – Cambiar las gafas para mirar el mundo: una nueva cultura de la sostenibilidad. Madrid: Libro sen Acción, 2011, p181.201

17 http://www.bibliobuses.com/documentos/El%20Bibliob%C3%BAs%20%C2%BFun%20sistema%20de%20informaci%C3%B3n%20en%20decadencia%20revisi%C3%B3n%20bibliogr%C3%A1fica.pdf

18 http://www.mediaciones.net/category/oralidades/