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sexta-feira, 27 de julho de 2018

«Leitura e felicidade»


Luís Santos, Sónia Almeida e Vera Oliveira


A relação entre «leitura e felicidade» é muitas vezes referida como intrínseca, nomeadamente no contexto do trabalho em promoção da leitura. Sendo um tema muito caro aos bibliotecários e aos grandes leitores (os que leem cerca de 30 livros por ano[1]), é hoje em dia consensual que os benefícios da leitura se traduzem em:
  • Aumento dos níveis de concentração, de memorização, de disciplina mental e pessoal;
  • Significativa melhoria da criatividade, da interação, da autoconfiança e do bem-estar;
  • Ampliação do vocabulário, e consequentemente da visão do mundo e ainda do despertar para novas ideias e valores culturais.
Na DGLAB, temos vindo a debater esta relação idealizada há mais de 20 anos (1996) e não podemos deixar de sublinhar aqui o quanto é em geral romantizada e mesmo, do nosso ponto de vista, redutora e subjetiva.

No âmbito do trabalho das Bibliotecas de Leitura Pública tivemos pois de ir sistematizando a definição destas noções, de modo a torná-las operativas, ou seja, para sabermos do que estamos exatamente a falar, mas também de maneira a que estas noções nos orientassem para objetivos concretos, exequíveis e adaptados ao tempo em que vivemos.

Assim, para nós, a noção de leitura é a da leitura do mundo, e de cada um de nós no mundo em que vivemos. Assim sendo, a leitura ultrapassa em muito a leitura de livros, de periódicos, de documentação multimédia e digital.

A leitura do mundo integra a leitura funcional (os horários da CP, as bulas dos medicamentos, o IRS…), a leitura dos meios de comunicação, a leitura das artes (do cinema, do teatro, da pintura…), a leitura da paisagem natural: a montanha, a planície, a orla marítima e da humanizada: a leitura das aldeias, vilas e cidades, a leitura dos sistemas em que nos integramos (políticos, sociais, económicos…).

A leitura de nós próprios implica, por seu turno, a interrogação pessoal, e o questionamento de quem somos e do que fazemos aqui e agora. Implica a consciência dos nossos estados espirituais: crenças, imagens e memórias mentais, visuais, auditivas, olfativas, sonoras, tácteis, intenções, emoções e o conteúdo do pensamento em geral: conceitos, raciocínios, associações de ideias[2]. Tão complexa quanto a leitura do mundo, a leitura de nós e do nosso relacionamento com os outros é aprendida na família, na escola, mas também através da religião e de inúmeras práticas de introspeção, de reflexão e de meditação, da psicoterapia, da psiquiatria e das terapias cognitivo-comportamentais. E da frequência da Biblioteca Pública.

A noção de felicidade não é menos complexa. Debatida pela filosofia clássica e só muito recentemente pela filosofia contemporânea, mas sobretudo pela psicologia positiva que aborda o funcionamento positivo da personalidade, o bem-estar subjetivo e o ensino da resiliência[3]: constitui uma noção que também necessita de ser definida para que saibamos do que estamos a falar. A felicidade é, como todos sabemos, subjetiva, pessoal, social, cultural. De entre os especialistas que mais recentemente se têm debruçado sobre esta noção, encontram-se Martin E. P. Seligman, psicólogo americano, responsável pelo Centro de Psicologia Positiva, professor da Universidade da Pensilvânia e Ex-Presidente da Associação Americana de Psicologia e Mihaly Csikszentmihalyi (psicólogo americano de origem húngara, professor e responsável pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago).



Para este último, as pessoas são mais felizes quando estão num estado que denomina de «fluxo» (de fluir), um estado de concentração completa numa determinada atividade ou situação. Um estado ótimo de motivação intrínseca, em que a pessoa se encontra imersa no que está a fazer. Uma sensação que (quase) todos já experienciámos e se caracteriza por uma sensação de grande liberdade, de prazer, de compromisso e de habilidade/capacidade durante a qual as sensações temporais (o tempo, a alimentação, o eu) são ignoradas. Resumindo, o estado de fluxo pode descrever-se como um estado em que a atenção, a motivação e a situação se conjugam, resultando numa harmonia produtiva que se retroalimenta. Para se conseguir este estado é necessário alcançar-se um estado de equilíbrio entre o desafio inerente à tarefa e a habilidade de quem a realiza[4].

Neste sentido, para nós, leitura e felicidade unem-se e traduzem-se no que Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, reclama como o exercício da cidadania, por parte de cada um de nós: a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade, oralmente e por escrito. De modo a refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmos a vida que vivemos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, de saber ler, escrever e falar em público[5].

Por isso creditamos que o papel da Biblioteca Pública pode não ser único, mas é muito mais do que apenas o lugar e o meio de transmissão do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca é um lugar de aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar de vitalidade psicológica é física: Mens sana in corpore sano, uma das principais características das bibliotecas resilientes, como tão bem nos explica a bibliotecária americana Karen Muro em «Resiliencia frente a sostenibilidad: el futuro de las bibliotecas»[6].


* * * 

Sendo estas as nossas linhas orientadoras de ação, como pode a Biblioteca Pública trabalhar para oferecer e desenvolver na sua comunidade este tipo de leitura e este tipo de felicidade? Não podemos seguramente contentarmos-nos, como até agora, com uma penetração máxima de 15% na comunidade que servimos.

Em primeiro lugar, trabalhando para conhecer profundamente a comunidade em que nos integramos, trabalho este sem o qual não é possível fazer o que é exigido a uma biblioteca pública segundo os critérios internacionais do nosso tempo. Sendo o nosso país muitíssimo diversificado, também não será possível transpor tal e qual todas as melhores práticas de que temos conhecimento sem as adaptar devidamente.

De todo o modo, a Biblioteca Pública terá necessariamente de sair da sua casa. Não poderá também prescindir de uma a equipa motivada para a inovação. E terá ainda de encontrar parceiros. Saindo da Biblioteca, como já foi referido, mas também mantendo uma observação e um diálogo constantes com os utilizadores, a equipa da biblioteca pode adquirir informação pertinente sobre as necessidades e os problemas do seu público.

Nos EUA é comum hoje em dia recorrer-se ao design thinking[7]. Na realidade, trata-se apenas de deixar de fazer o que sempre fizemos e de falarmos com os utilizadores. Não se trata de pensarmos em novos serviços que possamos acrescentar à Biblioteca, mas sim de interagirmos ativamente com os utilizadores. Se o fizermos como é suposto, seremos obrigados a criar toda uma nova estratégia com base nas novas dinâmicas que deste modo introduziremos na Biblioteca.

Para repensarmos a nossa atividade, temos de falar com as pessoas nas suas próprias casas, no seu ambiente. Temos de conhecer as suas necessidades e os seus desejos. Só assim obteremos informação sobre os nossos utilizadores: os diferentes grupos de utilizadores em que se inserem (estudantes, famílias, investigadores, reformados…) e sobre os nossos não utilizadores. Não se trata já de, como afirma a bibliotecária Cathy King, colocar a Biblioteca no coração da comunidade, mas sim de colocar a comunidade no coração da Biblioteca[8].

Em todo o mundo, as Bibliotecas Públicas são cada vez menos definidas pelo número de livros que exibem nas estantes e cada vez mais por serem espaços vivos onde as pessoas convivem. Nos países desenvolvidos, as Bibliotecas sempre foram conhecidas por se alinharem com o que as pessoas querem de facto, como aconteceu no que respeita às novas tecnologias em que as Bibliotecas deram o exemplo ao serem as primeiras a oferecerem computadores ao público e formação nesta área aos seus utilizadores.

Presentemente, as pessoas estão cada vez mais interessadas em aprender diferentes matérias e atividades e pretendem uma interação social com possibilidade de partilha de conhecimentos com outras. As Bibliotecas são cada vez mais um lugar de encontro, de relacionamento e de trabalho entre utilizadores e entre estes e bibliotecários, que temos de facilitar e oferecer. Para tal necessitamos de novas competências, bem como de adaptar os espaços físicos de que dispomos às necessidades dos novos grupos que queremos servir.

Esta nova Biblioteca Pública do século XXI é pois muito mais do que o tradicional serviço baseado em livros[9] e pode tornar-se num centro de troca de conhecimento e de cultura, onde as pessoas quererão muitas horas. O nosso objetivo é servir toda a comunidade, com certeza mais de 50% de penetração na nossa comunidade.


Um exemplo frutuoso: as parcerias

Para tal é também necessário estabelecer parcerias com outras instituições públicas locais, oferecendo um misto de serviços à comunidade. Fazendo-o como uma forma de dar a conhecer outros serviços públicos ou de partilhar o espaço com essas outras instituições (Biblioteca Municipal de Avis: serviços de educação e apoio psicológico).

Parcerias que oferecem serviços públicos fiáveis, como orientação e apoio na obtenção de cartões de cidadão e de passaportes, de cartas de condução, de casamentos e ainda apoio a serviços mais pessoais como os impostos, o divórcio, a educação das crianças…

Parcerias com hospitais e centros de saúde que permitam oferecer serviços médicos simples ou formação básica. Tal é o caso Enfield Council’s Ordnance Road Library inglesa que combina os serviços da Biblioteca e o acesso público à saúde, mas também o da nova Unidade Móvel de Anadia que se baseia no trabalho da Bibliomóvel de Proença-a-Nova, ou o caso do apoio ao Hospital do Fundão disponibilizado pela Biblioteca Municipal do Fundão.

Parcerias com os Serviços de Apoio a Crianças em Risco que formalizem este tipo de apoio aos mais jovens, com objetivos, públicos-alvo e contrapartidas bem definidos, de modo a que as bibliotecas não sejam meras babysitters de substituição (Biblioteca Municipal de Anadia.)

Parcerias com estabelecimentos de ensino superior ou Centros de Formação que permitem oferecer formação creditada a diferentes tipos de público: professores (Biblioteca Municipal da Batalha, Biblioteca de Mondim de Basto), adultos (Biblioteca Municipal de Penalva do Castelo)...


Parcerias com organizações e empresas privadas, estas, evidentemente mais difíceis de estabelecer, constituem todavia um território de oportunidades a fomentar (a parceria Padrinhos da Leitura, em Moura, nada mais é do que o convite a pequenos empresários locais para oferecerem a uma turma do 1º ciclo, anualmente, um livro a cada criança, em troca de um diploma institucional). 

Parcerias para obtenção de serviços de cafeteria que podem ser simples máquinas de bebidas e sanduiches ou que podem funcionar muito melhor do que os cafés das redondezas, como é o caso da Biblioteca Municipal de Tavira e da Suzzallo Library USA que abriu recentemente uma nova cafeteria em parceria com Starbucks. Ambos os casos atraem um número considerável de pessoas, muitas das quais não eram utilizadoras da Biblioteca.

Parcerias com empresas loca
is que possam oferecer workshops e formação especializada: a Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão oferece formação especializada sobre permacultura (produção, acondicionamento e mercado) a cerca de 60 agricultores que nunca antes tinham entrado na Biblioteca e que solicitaram posteriormente mais formação.

Temos de nos adaptar e de abraçar a mudança. De modo a transformarmos a Biblioteca num espaço comunitário (da comunidade) onde as pessoas possam obter a informação de que necessitam, resolver um problema com que se debatem, ler tranquilamente um livro, participar num workshop, ver uma exposição, tomar um café, fruir de um tempo em família, combinar um encontro com amigos, namorar, estudar para os exames, redigir uma tese … Um lugar de aprendizagem e de troca de ideias, de bem-estar, onde com toda a certeza nos sentiremos… felizes! 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dos contos e da narração oral II: os rios sagrados, Vila Velha de Ródão

Por iniciativa e sob a orientação do Prof. Luís Raposo, reconhecido especialista em arqueologia (Museu Nacional de Arqueologia / Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), teve lugar, de 9 a 12 de Julho, em Vila Velha de Ródão o 1º. Encontro Nacional sobre Contos Indígenas dedicado à temática ancestral dos rios, enquanto entidades sagradas. 
Folheto de divulgação
Concebido em parceria com a Direção Geral do Livro,dos Arquivos e das Bibliotecas e com a Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão (local onde o Tejo guarda um extraordinário complexo de arte rupestre, 80% submerso em 1976 pela barragem de Fratel), neste Encontro procurou reunir-se a reflexão teórica oriunda de diversas áreas do conhecimento à recolha da literatura oral portuguesa e à vivência da narração oral dos nossos dias.


Esta iniciativa teve, entre outros, o grande mérito de levar os presentes a pensar a propósito das narrativas ancestrais na visão que temos do mundo, na medida em que se procurou identificar um universo tão remoto que nos é quase completamente desconhecido. Para tal, foi com certeza significativo o facto de este Encontro ter decorrido na sequência do projeto espanhol realizado pela associação de promoção da leitura de Guadalajara, SLIJ, Espanha «Em busca do fogo das Histórias» que relatámos no post anterior.

Da reflexão entre os diversos especialistas em arqueologia, literatura oral, literatura portuguesa e narração oral, chegou-se à conclusão de que apurar este tipo de narrativas arcaicas pressupunha um imenso trabalho de resultados incertos. Na realidade, tal implica tentar retirar às poucas histórias portuguesas da tradição oral conhecidas que mencionam rios (na sua maioria lendas), milhares de anos de ocupação humana de culturas de diferentes épocas. Um trabalho de investigação muito aliciante, que requer um esforço de projeção imaginativa, para chegar a conclusões tão aproximadas quanto instáveis.

Reunião de trabalho na Biblioteca Municipal.

Ao longo dos trabalhos, detetaram-se, contudo, alguns tópicos recorrentes nas lendas recolhidas em Portugal (v. http://www.lendarium.org/). Os rios, entre os quais, o Tejo, o Douro, o Guadiana e outros falam, cantam, ralham, gritam, eles próprios ou, mais frequentemente, seres que neles vivem e deles fazem parte: personagens mágicas (luzes, fogos fátuos, sereias, cobras com cabeleiras…) Na sua  maioria, as intrigas induzem a um afastamento entre os humanos e estes seres, nem sempre maléficos, ou à incapacidade de realizar o que lhes é designado: ao avistar ou ao ouvir estas entidades/seres, é proposto, a quem os vê, fazer alguma coisa que o conseguirá ou,em geral, não conseguirá levar a cabo… 

A mitologia inerente aos rios sagrados parece ser mais clara e definida em lendas brasileiros ou africanas, cujas narrativas mais arcaicas não sofreram tantas incorporações de outras culturas mais recentes, como é o caso da Península Ibérica e mais concretamente de Ródão que regista diferentes ocupações humanas desde há 30.000 anos atrás até aos nossos dias. Um dos contos recolhidos pela narradora Ana Sofia Paiva, originário do Brasil, bem como um outro de Mia Couto, mencionado por Carlos Marques, comprovam em parte esta assunção.

A colaboração conseguida pelo Museu Nacional de Arqueologia, com o Clube de Arqueologia do Externato Frei Luís de Sousa de Almada, revelou-se uma proposta de integração da narração oral no ensino da pesquisa do quotidiano de tempos mais remotos.



Foi assim que cerca de 40 jovens se juntaram aos narradores para aprenderem o que é a narração oral, qual a sua força e o seu fascínio. 

Aprender a contar no século XXI.

Para tal, foi dedicado um dia ao trabalho com os jovens que traziam histórias redigidas em grupo e as queriam ler no Festival Popular que se realizou no sábado dia 12, ao início da noite. Deste trabalho, conduzido pelos quatro narradores  ao longo de várias horas, resultou para estes jovens num primeiro contacto prático com a narração oral como é entendida hoje, na Europa do século XXI. 
Ana Sofia Paiva.
António Fontinha.
Carlos Marques.
Patrícia Amaral.
Rodolfo Castro.
O Festival Popular teve lugar ao ar livre, na noite de lua cheia de 12 de Julho, com o Tejo como pano de fundo. Contaram, em primeiro lugar, o Prof. Luís Raposo:

O primeiro contador da noite.
Contaram depois quatro jovens do clube de arqueologia que decidiram contar (e não ler) as suas histórias e, de seguida, uma jovem de Vila Velha de Ródão que fora integrada no grupo do Clube de Arqueologia: 


Os jovens contadores.
No final, foi a vez dos contadores profissionais. No seu conjunto, este Festival revelou, a um público de cerca de 150 pessoas que desconhecia este universo, o poder e o encantamento dos contos. Presentes desde os mais remotos tempos da nossa espécie, os contos, a voz humana que narra, em conjunto com o canto e a música, constituem parte integrante de nós e a respetiva recuperação, na transição do século, para a realidade e para o quotidiano na Europa, na América e mesmo em África, comprova-o. 


O Festival profissional.
Os resultados concretos desta iniciativa só podem ser considerados como muito positivos. Em primeiro lugar, foi já anunciada a continuidade deste  Encontro que culmina num Festival Popular, estando já agendado o 2º. Encontro. Este deverá ter lugar na Páscoa de 2015 no município do Alandroal, contando igualmente com o apoio da respetiva autarquia, e deverá ser subordinado ao tema geral Lugares Mágicos em Portugal. A arqueologia e o efabulário popular

No que respeita a Vila Velha de Ródão, Graça Baptista, responsável pela Biblioteca Pública, afirmou querer trabalhar a narração oral, eventualmente com base na literatura tradicional da região, combinada ou não com textos de autor. Esta iniciativa poderá vir ainda a integrar ou não o projeto europeu proposto e em avaliação pela Professora Natividade Pires do Politécnico de Castelo Branco.


Também o Externato Frei Luís de Sousa, de Almada, se maravilhou com os contos e nos falou da vontade de estudar como integrar a narração oral na respetiva componente pedagógica.

Por último, no que respeita aos narradores e especialistas convidados, foi extremamente desafiante ter de resolver, em apenas três dias, o modus faciendi e o confronto com: 1) a ampliação do reportório de contos dos narradores presentes, 2) o trabalho de formação dos jovens in loco e 3) ainda a (re)conceção de todo o Festival Popular. Na realidade, acreditamos que este projeto nos abriu a todos novas perspetivas de atuação no que à narração oral respeita, conseguidas também através de longas discussões e do questionamento do que vimos fazendo e do que poderemos vir a fazer nesta área de promoção da leitura e da cidadania. 


Narradores a almoçar e a refletir.
Com efeito, nunca é demais sublinhar que, para além da extraordinária componente encantatória da narração oral, o domínio da oralidade (como o da escrita) permitem-nos ser mais socialmente ativos, para além de mais lúcidos e mais conscientes em relação a nós próprios e ao mundo que nos rodeia. Reservado, em Portugal e um pouco por todo o mundo, a uma pequena elite, o domínio da oralidade revela-se-nos nas limitações e constrangimentos da nossa democracia. E, no entanto, trata-se apenas de meras técnicas que se aprendem facilmente na infância e na juventude e até mesmo ao longo da vida. 

Como já aqui o afirmámos diversas vezes, o exercício da cidadania requer, por parte de todos e de cada um de nós, a capacidade de contarmos, em público e por escrito, a nossa história e a da nossa comunidade. Afinal, o único modo de de nos tornarmos cidadãos de plenos direitos e deveres e de refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmos significativamente a vida que vivemos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

As Bibliotecas Públicas no século XXI: uma mudança inalienável?

Nas duas últimas décadas do século XX assistimos, um pouco por toda a Europa, à reivindicação e à construção em vasta escala de novas Bibliotecas Públicas declaradamente abertas a todos os cidadãos. Depois de muito se discutir o fim dos livros como os conhecemos e, por arrastamento, o do lugar os livros, as Bibliotecas Públicas analisadas agora, à luz do novo milénio, demonstram inequivocamente uma evidente mudança em relação à tradicional missão cultural e de ensino, de matriz anglo-saxónica, que até então se pedia a este equipamento cultural. 

Local de múltiplos eventos e encontros os mais diversos, a polivalência cultural e cívica é agora a marca indelével das bibliotecas públicas, cada vez mais versáteis e disponíveis para acolher todo o tipo de públicos e apoiar a sua comunidade.


A Biblioteca Pública deste novo século, para além de lugar de aprendizagem, tornou-se também um lugar para se estar e para se (con)viver. Distante das grandes bibliotecas centradas no empréstimo massivo, sem espaços de estudo e sem utilizadores durante as horas de trabalho, encontramos agora  edifícios abertos, desenhado com preocupações estéticas e de acolhimento dos utilizadores para as mais diversas actividades. Dois exemplos.



Biblioteca Pública de Guadalajara

Na nova Biblioteca Pública Municipal de Guadalajara, em Espanha, outrora um palácio senhorial, existe um grande pátio interior coberto, mobilado com sofás e mesas de apoio. Nas estantes das paredes em volta estão as novidades e as seleções temáticas e num dos lados uma bateria de computadores disponíveis ao público. Num dos cantos, encontra-se um piano de cauda onde de vez em quando um leitor se senta para tocar uma peça de jazz ou de música clássica que se ouve no segundo piso, que é simultaneamente galeria de exposições e também local de trabalho na Internet, bem como na área contígua do fundo local.

Pátio interior coberto.
Sala de estudo (e de jantares de convívio).
No terceiro andar, uma grande sala de estudo acolhe em silêncio total trezentos estudantes das 9h00 às 21h00 em épocas de exame. Nos dias de festa, como no jantar anual dos cerca de 20 clubes de leitura desta Biblioteca, trezentas pessoas jantam nessa mesma sala e, de seguida dançam pela noite fora ao som de um piano acústico. no jardim interior ou no referido átrio coberto quando o tempo está de chuva. 

Sala polivalente.

Na sala polivalente, ao final da tarde, debatem-se temas atuais: «Iniciativas sociais de dinamização comunitária», «Mães contra a droga», «Crise financeira: origens e evolução». E quando esta se torna pequena para o público que a elas aflui, as sessões são realizadas também no pátio interior.


Pátio interior coberto visto de outro ângulo.
Na muito mais pequena Biblioteca de São Brás de Alportel, em Portugal, instalada no edifício de uma antiga moagem recuperada e adaptada, a sala de periódicos, logo à direita de quem entra, acolhe, pela manhã, os mais velhos que não prescindem da leitura dos seus jornais.
Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel.
Nesta sala são também acolhidos os leitores com limitações motoras, já que o elevador existente não comporta uma cadeira de rodas e, em algumas tardes, uma leitora que gosta de um pequeno órgão que ali se encontra toca peças clássicas que ecoam no átrio e no pátio interior, onde também se celebram muitas festas.
 
Festa do 1º. aniversário do Projeto Aventura.
Às quintas-feiras, entre as 18h30 e as 20h00, o coro municipal, que reúne 40 elementos de cinco nacionalidades, ensaia na sala polivalente um repertório de música clássica, madrigal e folclore de várias línguas europeias.

Foto de grupo do Coro de São Brás.
O clube de leitura também se reúne da sala polivalente.
Na sala contígua, foram os adolescentes de São Brás que «obrigaram», com as suas conversas intermináveis, os seus telemóveis, os seus fones e as suas mochilas coloridas, a transformar a ex-sala de audiovisuais, agora com o acesso generalizado à Internet praticamente sem uso, na «sua» sala de leitura e de estudo.

Em 2008, Hannu Uusi-Videnoja, à época embaixador da Finlândia no Brasil, afirmava já, a propósito da extraordinária aposta do estado nas bibliotecas públicas finlandesas que o respetivo papel estava «a mudar rapidamente nesta nova sociedade da informação. Entre os novos desafios encontra-se a necessidade de ensinar os cidadãos a pesquisar, a avaliar, a comparar, a combinar e a usar adequadamente a informação disponível.»

Segundo Uusi-Videnoja, para a Finlândia a biblioteca pública «é um centro cultural local, um portal de qualidade que disponibiliza capital cultural e intelectual ao público, que pode usá-lo conforme as suas necessidades seja na biblioteca, seja através Internet.» Este embaixador filandês afirma que uma biblioteca municipal, seja numa área residencial ou numa pequena cidade, deve organizar-se de modo a proporcionar à sua comunidade:

  • uma sala de estar e de convívio;
  • o acesso à cultura e à informação;
  • a possibilidade de recuperação de informação independente;
  • uma rede de serviços públicos e privados;
  • múltiplos eventos e serviços culturais.

Para saber mais.
Com efeito, «de acordo com a visão adoptada (em 2003) na Estratégia das Bibliotecas para 2010, a biblioteca pública na sociedade finlandesa é uma instituição activa e eficaz, e de fácil acessibilidade à consulta pública. Encontra-se aberta a todos os interessados, o que fortalece a democracia. Transmite a herança cultural, apoia a construção de uma sociedade multicultural e promove o espírito comunitário. Oferece um ambiente de aprendizagem, apoiando pessoas de todas as idades e promove as competências necessárias a tornar os meios de comunicação acessíveis a todos».

Mas este documento vai ainda mais longe ao afirmar que, «os direitos à informação e à criatividade são considerados direitos humanos básicos. O direito à informação é intrínseco ao exercício pleno da cidadania e igualmente indispensável ao desenvolvimento da criatividade, a expressão própria do ser humano.»

Jens Thorhauge, Director Geral da Danish Agency for Libraries and Media, afirmava igualmente, em 2010, que a grande mudança recente na utilização das Bibliotecas Públicas dinamarquesas era a vivência que dela fazem as pessoas que a utilizam: ler, trabalhar, aceder à Internet, frequentar cursos, presenciais ou a distância, encontrarem-se, verem exposições, participarem em eventos culturais os mais diversos, constituem exemplos desta nova mudança.

Para saber mais.
Thorhauge sublinha que cada ano é mais diversificado o público que vai à Biblioteca Pública para participar nas atividades que esta oferece, as quais são também por seu turno cada vez mais dirigidas a públicos diferentes: jardins de infância, crianças com deficiências, clubes de leituras, iniciativas cívicas de apoio a minorias, serviços para empresas... Esta nova apropriação das bibliotecas pelo seu público é reveladora das potencialidades deste equipamento cultural: um verdadeiro centro cívico que oferece atividades culturais, sociais e educacionais. A chave desta mudança reside na assunção, por parte das bibliotecas, de uma atitude proativa alicerçada nas perguntas:


«precisa de ajuda?
 conhece o fundo antigo?
quer juntar-se ao debate?»

Em 2010, um Comité instituído com o objetivo de conceber o papel das Bibliotecas na sociedade do conhecimento e na necessidade de educação ao longo da vida, enuncia os princípios por que a Biblioteca Pública dinamarquesa se deve guiar: ser aberta à comunidade e cheia de vida, disponibilizar uma biblioteca digital e desenvolver múltiplas parcerias.


Também a NAPLE (National Authorities on Public Libraries in Europe) assinala que «o espaço biblioteca pública se encontra em considerável mudança na primeira década do século XXI»... Para além de «uma forte presença em termos de património edificado e de se tornar também cada vez mais central no desenho do tecido urbano, visível na construção de novas bibliotecas e na remodelação de outras, a Biblioteca Pública é um espaço agora descentrado da coleção e intensamente focado nos utilizadores, entrecruzando e reforçando serviços físicos e virtuais».

Criada há cerca de uma década com o objetivo de promover no seu conjunto as bibliotecas públicas europeias, a NAPLE tem-se evidentemente debatido com os problemas e as assimetrias inerentes ao estado da União Europeia. Contudo, a sua mais recente iniciativa: promover uma discussão em torno destas novas Bibliotecas Públicas, através da criação de uma base de dados sobre edifícios de bibliotecas que reúna os melhores exemplos das mais recentes bibliotecas europeias, pode sedimentar uma importante discussão em torno desta nova e substantiva mudança. Ainda em construção, esta base de dados pretende incluir um grande número de países que anunciaram já a sua vontade de a integrar. Segundo a NAPLE, «esta mudança está a ter lugar em toda a Europa e apela a novos conceitos e ideias».


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Bibliotecas Municipais: públicos e parcerias

A Biblioteca Pública enquanto lugar extraordinário é como a «Utopia» dita por Eduardo Galeano: à distância da linha do horizonte, é inalcansável, mas guia o nosso caminho e dá-nos força para continuar. As Bibliotecas Públicas portuguesas são por vezes (algumas vezes muitas vezes já), esse lugar extraordinário. É evidente que muitas não o são, e as que o são não o podem ser em permanência: se por hipótese teórica vivêssemos em constante estado de graça como o poderíamos reconhecer?

Devemos pois admitir que, muito embora as nossas Bibliotecas Públicas sejam recentes, menores de 20 anos de idade, é verdade que muitos de nós já aí vivemos alguns desses extraordinários momentos. Que, por vezes nos apanharam até completamente de surpresa: sem disso estarmos à espera, encontrámo-nos em estado de alegria e graça.


A primeira grande conquista das Bibliotecas Públicas portuguesas foi o público infantil e não é por acaso que a «Hora do Conto» é a atividade mais consistentemente praticada e generalizada em todas elas. Com as crianças vieram alguns adultos (pais, tios, avós...), mas sobretudo as escolas e, logo depois, o apoio técnico às Bibliotecas Escolares, os catálogos coletivos concelhios e a noção de património bibliográfico concelhio, o cartão de leitor concelhio. Vieram também os mais velhos a quem ensinamos as novas tecnologias e que nos ensinaram a nossa história coletiva a partir das suas histórias de vida e das suas memórias, as quais, por seu turno, nos permitem agora ampliar o fundo local de cada biblioteca: cf. Vidas e memórias de uma comunidade (Vila Velha Ródão) e Memórias de Figueiró (dos Vinhos). Como com as crianças, a Biblioteca foi também ao encontro dos mais velhos: saiu fora de portas e foi a escolas, jardins de infância, centros de dia e lares de idosos.


Assim sendo, uma das grandes dificuldades com que presentemente nos debatemos é, como afirma a bibliotecária de Arganil, Margarida Fróis, a de chamar à Biblioteca aqueles não nos vêm visitar de... autocarro! A saber: os jovens e os adultos, sem os quais Biblioteca Municipal não pode considerar-se devidamente implantada na sua comunidade. Neste sentido, várias são as opções em aberto. Do estudo e da promoção de parcerias com o Instituto de Emprego e de Formação Profissional, bem como com instituições do ensino superior para o desenvolvimento do ensino a distância e da formação ao longo da vida, até ao fomento de parecerias com o tecido empresarial autárquico com vista ao aprofundamento e à diversificação de saberes e de técnicas locais muitas vezes em vias de extinção.

Para os jovens é importante mergulharmos no respetivo universo e mais além..., propondo-lhes desafios e causas por que lutar: das tecnologias ao voluntariado, do consumo sustentável à cidadania e ao empreendedorismo: da divulgação de iniciativas nacionais e internacionais como o programa Escolhas, ou o «Do Something português» ou o «Impulso jovem», mas também do incentivo e do apoio a concursos e projetos dos mais domésticos como o Bibliofilmes (realização de vídeos) aos mais internacionais como o Iniciativas dos jovens (trabalho, estudo, voluntariado e intercâmbio na UE). Informar (e informarmo-nos) sobre o que fazer bem no mundo que nos rodeia passa pela divulgação de sítios com o IM (Ideias que me movem) - Magazine cujo lema é O melhor que se faz no mundo para um mundo melhor, ou o Actua contra a crise  ou o Green Savers ou o Sustentator.


Para tal, todos acordamos que o primeiro passo é conhecer bem a nossa comunidade e estabelecer elos com as pessoas e as organizações que nela são mais influentes. A ligação entre a Biblioteca de Vila Velha de Ródão tanto com a Fundação EDP, como com o filho do respetivo patrono, o apresentador, realizador e produtor, José Nuno Martins, disso constituem exemplo. Envolver pequenos empresários, intelectuais e especialistas diversos está na base do extraordinário projeto «Padrinhos da Leitura», concebido pela Biblioteca de Moura e adaptado pela Biblioteca de Portimão, e constituem outros excelentes exemplos a replicar! A este propósito recomendamos a leitura da revista brasileira Responsabilidade Social que reúne argumentos, propostas e exemplos deste novo tipo de obrigação social, nomeadamente no que respeita ao investimento social privado.
Cada vez mais unanimemente considerado muitíssimo importante, o papel das Bibliotecas Públicas portuguesas no desenvolvimento socio-económico das respectivas comunidades, hoje ainda incipiente, passa não apenas pelo apoio à formação que oferece ou propõe, como pelo auxílio na procura de emprego e pela cooperação e apoio às pequenas e médias empresas. Os melhores exemplos deste tipo de projetos conjuntos continuam ainda a ser estrangeiros, mas pela respetiva consistência vale bem o esforço de os estudar:

Urban Libraries Council − organização americana que, desde 1971, promove as Bibliotecas Públicas enquanto parte essencial da vida e do tecido urbanos, bem como o modo como as Bibliotecas Públicas podem contribuir para a dimensão humana do desenvolvimento económico. 

NI –Libraries: North Ireland Libraries − conjunto de serviços prestados pela Rede de Bibliotecas da Irlanda do Norte na área das empresa e negócios: iniciar ou desenvolver um negócio, formação profissional, lucros e investimentos, nichos de mercado, patentes, informação sobre direitos de autor…


Business Information Services − páginas da Lancaster Libraries sobre os serviços de apoio ao desenvolvimento de empresas locais oferecidos pelas Bibliotecas Públicas de Lancaster, Pensilvânia (EUA). 


South Ayrshire Council: comunity services − conjunto de serviços de apoio às pequenas e médias empresas oferecidos pelas bibliotecas públicas desta região da Escócia: agricultura, floresta, pescas, transformação, serviços e turismo.

 
O trabalho conjunto entre as instituições culturais públicas do concelho (o museu, o arquivo, o cineteatro...), que à partida parecia uma evidência, revelou-se um outro passo difícil de concretizar, não sendo deste modo possível acionar e potenciar todo um conjunto de recursos humanos, técnicos e financeiros em prol da história e da cultura do município.

Também a colaboração com associações, organizações e mesmo empresas de natureza cultural e recreativa municipais não parece ter sido ainda devidamente explorada e neste campo há ainda todo um trabalho por fazer. Contudo, convém lembrar que a cooperação e o estabelecimento de parcerias entre museus e bibliotecas (e arquivos) têm, no estrangeiro, vindo a revelar modelos eficientes e estimulantes para complementar e diversificar recursos, meios, ideias, projectos... De entre os exemplos mais (re)conhecidos dois são também anglófonos: 


o Institute of Museum and Library Services (IMLS) − instituto americano cuja missão visa promover bibliotecas e museus que desenvolvam a união de pessoas, informação e ideias. De âmbito nacional, o IMLS trabalha em coordenação com organizações do poder central e local para apoiar o conhecimento, a cultura e a herança cultural, a aprendizagem, a inovação e o desenvolvimento profissional; 


e o MLA: Museums, Libraries and Archives Council − organização governamental inglesa que oferece aconselhamento, apoio e recursos para incentivar a inovação na área dos museus, bibliotecas e arquivos. A missão do MLA visa desenvolver competências profissionais e promover serviços de excelência para utilizadores e leitores de todas as idades e origens sociais, sejam visitantes ou residentes no Reino Unido.


Por último, os estudiosos e especialistas e homens de negócios em cultura e indústrias culturais apontam para o investimento no triângulo: «cultura - ambiente - turismo» como uma das bases sobre a qual deveria assentar uma das principais apostas de desenvolvimento do nosso país. Neste pressuposto, poderia caber à Biblioteca Pública, lugar por excelência de difusão de informação e de cultura a todo o tipo de públicos, o papel agregador destes dois tipos de património e dos correspondentes estudo e reflexão crítica, por forma a transmutá-los e a modernizá-los ao serviço de um turismo sustentável.

Neste âmbito, sugerimos a leitura de As inter-relações turismo, meio ambiente e cultura de Eliane Pires, Bragança: Instituto Politécnico, 2004, e o estudo O sector cultural e criativo em Portugal, Lisboa: Augusto Mateus & Associados, 2010.


Sobretudo nos municípios mais pequenos e nos do interior do nosso país, a aposta nesta fórmula de desenvolvimento sustentável parece começar agora a delinear-se e a tomar forma, nomeadamenrte no âmbito das Comunidades Intermunicipais em geral, e através da cooperação entre bibliotecas em particular. Mas começámos apenas. O caminho traçado está quase todo por percorrer.


Mapa de Portugal por CIM.

terça-feira, 24 de julho de 2012

«Abraçar o mundo sem deixar ninguém de fora II»: as Bibliotecas Itinerantes *

BIBLIOTECAS ITINERANTES:  estrelas mediáticas

Se as grandes protagonistas da leitura pública são as Bibliotecas-caixa, as verdadeiras estrelas dos serviços de extensão bibliotecária e cultural são as bibliotecas itinerantes, também conhecidas por Bibliomóveis ou Bibliobuses. Dos países mais desenvolvidos aos mais carenciados, as bibliotecas itinerantes continuam a ser consideradas das mais vívidas e melhor conseguidas «fórmulas» de biblioteca. Concebidas para ir (mais) longe, onde a maior parte das pessoas não vai, e acarinhadas por bibliotecários sensíveis, as bibliotecas itinerantes têm, há mais de um século, e cada vez mais, leitores fervorosos literalmente em todo o mundo.

Os primeiros bibliomóveis eram basicamente armários com estantes montados em carroças puxadas por cavalos:

 
Por isso, o primeiro bibliomóvel português, criado por Branquinho da Fonseca, conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, em 1953, é na realidade uma actualização dos primeiros bibliomóveis dos países anglo-saxónicos, tal como Augusto Ataíde preconizara em 1914.   



Como é do conhecimento da maioria dos portugueses adultos e mais velhos, foi a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) que, na segunda metade do século XX, desenvolveu este serviço em todo o território nacional. Pela primeira vez, no nosso país, os livros chegavam massiva e livremente a (quase) todos os que quisessem ler.

 

Último modelo ainda oferecido pela FCG (ca 2000).
No início dos anos setenta a Gulbengian dotara o país de 63 unidades móveis (e 166 unidades fixas) que no seu conjunto cobriam todo o país. Com o desenvolvimento do Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas a partir de 1987, a FCG vai propondo a «transição» das suas bibliotecas itinerantes e fixas para os respectivos municípios, os quais, apoiados pela administração central, vão progressivamente assumindo a gestão e o desenvolvimento das bibliotecas municipais e, em consequência, dos serviços de extensão bibliotecária. Desta transição constitui exemplo, entre tantos outros, a Bibliomóvel de Viana do Castelo que, com o apoio da FCG entre 1994 e 2002, percorria 800 kms por mês, com uma paragem mensal em todas as freguesias do concelho.

 

As bibliotecas itinerantes acompanharam os tempos, adaptaram-se e modernizaram-se, tecendo sólidas redes de leituras e de afectos nos mais distantes e isolados concelhos portugueses. Na sua maioria de pequena dimensão (o que lhes trás duas vantagens: percorrer as mais difíceis estradas do nosso país e serem conduzidas por qualquer pessoa que detenha uma simples carta de condução), as bibliomóveis oferecem centenas de itens (entre livros, revistas, cd e dvd) e acesso à Internet. Mas, sobretudo, cuidam das populações dos confins mais solitários do nosso país. Como a biblioteca itinerante de Arouca que percorre todas as freguesias do concelho, nomeadamente as que se encontram mais longe da sede:


Ou a do Fundão que disponibiliza livros, mas também, DVDs e CDs em visitas quinzenais. O horário é afixado nas juntas de freguesia, igrejas ou escolas.



O Bibliomealhada, o maior bibliobus português, é um autocarro transformado pelos próprios funcionários da autarquia em biblioteca itinerante. Tem zona de leitura, um pequeno anfiteatro e acesso à Internet. Faz paragens em 25 lugares das 8 freguesias do concelho. As escolas do ensino básico e jardins-de-infância recebem mensalmente a mala «Livros em Viagem». Os lares e centros de dia recebem os «(A)braços da Biblioteca Municipal», cestos com livros CDs e DVDs.



No concelho de Marvão, a Biblioteca Pública era, até 2010, a carrinha itinerante: Catarina Machado, a bibliotecária (e também arquivista), percorria as quatro freguesias do concelho de modo a chegar a todos os seus cerca de 3500 habitantes. Depois a Autarquia dispensou os serviços
 da bibliotecária e a Biblioteca encerrou as portas, digamos assim. O concelho ficou evidentemente ainda mais pobre!

Marvão- 2008
Marvão - 2010

Nos últimos anos, cada vez mais autarquias e bibliotecas municipais têm vindo a dar-se conta das imensas potencialidades das bibliotecas itinerantes na promoção da leitura e da cidadania no nosso país, tornadas de novo evidentes com o trabalho desenvolvido pelas cerca de 70 bibliomóveis que actualmente circulam no nosso país. De entre estas, é forçoso destacarmos a de Nuno Marçal que, para além de assegurar a presença da Bibliomóvel em todo o concelho de Proença-a-Nova, a divulga como nenhum outro no seu blogue O Papalagui: crónicas de um bibliotecário ambulante.



Projecto «Ciência para todos» na Bibliomóvel de Proença-a-Nova - 2009

As actuais bibliotecas itinerantes orgulham-se do seu trabalho que as populações tanto apoiam e apostam numa imagem forte, como a de Loulé ou a de Vila Franca de Xira.



A Biblioteca Andarilha de Beja, inaugurada em 2009, a de Grândola em 2011 e a de Penedono em 2012 são as mais recentes bibliotecas itinerantes do nosso país que conta presentemente (Agosto de 2012) com 71 Bibliotecas itinerantes em actividade.

Beja - 2009
Grândola - 2011
Penedono - 2012

Para conhecer melhor as cada vez mais dinâmicas Bibliotecas Itinerantes, consulte O papalagui, o blogue de Nuno Marçal e A Nave Voadora, o directório das Bibliotecas Itinerantes Portuguesas da autoria de João Henriques. Mais, contacte-os e contribua para a actualização de A Nave Voadora e para o projecto de recolha de fotografias de todas as nossa Bibliomóveis de Nuno Marçal!