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sexta-feira, 27 de julho de 2018

«Leitura e felicidade»


Luís Santos, Sónia Almeida e Vera Oliveira


A relação entre «leitura e felicidade» é muitas vezes referida como intrínseca, nomeadamente no contexto do trabalho de promoção da leitura. Sendo um tema muito caro aos bibliotecários e aos grandes leitores (os que leem cerca de 30 livros por ano[1]), é hoje em dia consensual que os benefícios da leitura se traduzem em:
  • Aumento dos níveis de concentração, de memorização, de disciplina mental e pessoal;
  • Significativa melhoria da criatividade, da interação, da autoconfiança e do bem-estar;
  • Ampliação do vocabulário, e consequentemente da visão do mundo e ainda do despertar para novas ideias e valores culturais.
Na DGLAB, temos vindo a debater esta relação idealizada há mais de 20 anos (1996) e não podemos deixar de sublinhar aqui o quanto é em geral romantizada e mesmo, do nosso ponto de vista, redutora e subjetiva.

No âmbito do trabalho das Bibliotecas de Leitura Pública tivemos pois de ir sistematizando a definição destas noções, de modo a torná-las operativas, ou seja, para sabermos do que estamos exatamente a falar, mas também de maneira a que estas noções nos orientassem para objetivos concretos, exequíveis e adaptados ao tempo em que vivemos.

Assim, para nós, a noção de leitura é a da leitura do mundo, e de cada um de nós no mundo em que vivemos. Assim sendo, a leitura ultrapassa em muito a leitura de livros, de periódicos, de documentação multimédia e digital.

A leitura do mundo integra a leitura funcional (os horários da CP, as bulas dos medicamentos, o IRS…), a leitura dos meios de comunicação, a leitura das artes (do cinema, do teatro, da pintura…), a leitura da paisagem natural: a montanha, a planície, a orla marítima e da humanizada: a leitura das aldeias, vilas e cidades, a leitura dos sistemas em que nos integramos (políticos, sociais, económicos…).

A leitura de nós próprios implica, por seu turno, a interrogação pessoal, e o questionamento de quem somos e do que fazemos aqui e agora. Implica a consciência dos nossos estados espirituais: crenças, imagens e memórias mentais, visuais, auditivas, olfativas, sonoras, tácteis, intenções, emoções e o conteúdo do pensamento em geral: conceitos, raciocínios, associações de ideias[2]. Tão complexa quanto a leitura do mundo, a leitura de nós e do nosso relacionamento com os outros é aprendida na família, na escola, mas também através da religião e de inúmeras práticas de introspeção, de reflexão e de meditação, da psicoterapia, da psiquiatria e das terapias cognitivo-comportamentais. E da frequência da Biblioteca Pública.

A noção de felicidade não é menos complexa. Debatida pela filosofia clássica e só muito recentemente pela filosofia contemporânea, mas sobretudo pela psicologia positiva que aborda o funcionamento positivo da personalidade, o bem-estar subjetivo e o ensino da resiliência[3]: constitui uma noção que também necessita de ser definida para que saibamos do que estamos a falar. A felicidade é, como todos sabemos, subjetiva, pessoal, social, cultural. De entre os especialistas que mais recentemente se têm debruçado sobre esta noção, encontram-se Martin E. P. Seligman, psicólogo americano, responsável pelo Centro de Psicologia Positiva, professor da Universidade da Pensilvânia e Ex-Presidente da Associação Americana de Psicologia e Mihaly Csikszentmihalyi (psicólogo americano de origem húngara, professor e responsável pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago).


Para este último, as pessoas são mais felizes quando estão num estado que denomina de «fluxo» (de fluir), um estado de concentração completa numa determinada atividade ou situação. Um estado ótimo de motivação intrínseca, em que a pessoa se encontra imersa no que está a fazer. Uma sensação que (quase) todos já experienciámos e se caracteriza por uma sensação de grande liberdade, de prazer, de compromisso e de habilidade/capacidade durante a qual as sensações temporais (o tempo, a alimentação, o eu) são ignoradas. Resumindo, o estado de fluxo pode descrever-se como um estado em que a atenção, a motivação e a situação se conjugam, resultando numa harmonia produtiva que se retroalimenta. Para se conseguir este estado é necessário alcançar-se um estado de equilíbrio entre o desafio inerente à tarefa e a habilidade de quem a realiza[4].

Neste sentido, para nós, leitura e felicidade unem-se e traduzem-se no que Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, reclama como o exercício da cidadania, por parte de cada um de nós: a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade, oralmente e por escrito. De modo a refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmos a vida que vivemos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, de saber ler, escrever e falar em público[5].

Por isso creditamos que o papel da Biblioteca Pública, pode não ser único, mas é muito mais do que apenas o lugar e o meio de transmissão do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca é um lugar de aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar de vitalidade psicológica é física: Mens sana in corpore sano, uma das principais características das bibliotecas resilientes, como tão bem nos explica a bibliotecária americana Karen Muro em «Resiliencia frente a sostenibilidad: el futuro de las bibliotecas»[6].


* * * 

Sendo estas as nossas linhas orientadoras de ação, como pode a Biblioteca Pública trabalhar para oferecer e desenvolver na sua comunidade este tipo de leitura e este tipo de felicidade? Não podemos seguramente contentarmo-nos, como até agora, com uma penetração máxima de 15% na comunidade que servimos.

Em primeiro lugar, trabalhando para conhecer profundamente a comunidade em que nos integramos, trabalho este sem o qual não é possível fazer o que é exigido a uma biblioteca pública segundo os critérios internacionais do nosso tempo. Sendo o nosso país muitíssimo diversificado, também não será possível transpor tal e qual todas as melhores práticas de que temos conhecimento sem as adaptar devidamente.

De todo o modo, a Biblioteca Pública terá necessariamente de sair da sua casa. Não poderá também prescindir de uma a equipa motivada para a inovação. E terá ainda de encontrar parceiros. Saindo da Biblioteca, como já foi referido, mas também mantendo uma observação e um diálogo constantes com os utilizadores, a equipa da biblioteca pode adquirir informação pertinente sobre as necessidades e os problemas do seu público.

Nos EUA é comum hoje em dia recorrer-se ao design thinking[7]. Na realidade, trata-se apenas de deixar de fazer o que sempre fizemos e de falarmos com os utilizadores. Não se trata de pensarmos em novos serviços que possamos acrescentar à Biblioteca, mas sim de interagirmos ativamente com os utilizadores. Se o fizermos como é suposto, seremos obrigados a criar toda uma nova estratégia com base nas novas dinâmicas que deste modo introduziremos na Biblioteca.

Para repensarmos a nossa atividade, temos de falar com as pessoas nas suas próprias casas, no seu ambiente. Temos de conhecer as suas necessidades e os seus desejos. Só assim obteremos informação sobre os nossos utilizadores: os diferentes grupos de utilizadores em que se inserem (estudantes, famílias, investigadores, reformados…) e sobre os nossos não utilizadores. Não se trata já de, como afirma a bibliotecária Cathy King, colocar a Biblioteca no coração da comunidade, mas sim de colocar a comunidade no coração da Biblioteca[8].

Em todo o mundo, as Bibliotecas Públicas são cada vez menos definidas pelo número de livros que exibem nas estantes e cada vez mais por serem espaços vivos onde as pessoas convivem. Nos países desenvolvidos, as Bibliotecas sempre foram conhecidas por se alinharem com o que as pessoas querem de facto, como aconteceu no que respeita às novas tecnologias em que as Bibliotecas deram o exemplo ao serem as primeiras a oferecerem computadores ao público e formação nesta área aos seus utilizadores.

Presentemente, as pessoas estão cada vez mais interessadas em aprender diferentes matérias e atividades e pretendem uma interação social com possibilidade de partilha de conhecimentos com outras. As Bibliotecas são cada vez mais um lugar de encontro, de relacionamento e de trabalho entre utilizadores e entre estes e bibliotecários, que temos de facilitar e oferecer. Para tal necessitamos de novas competências, bem como de adaptar os espaços físicos de que dispomos às necessidades dos novos grupos que queremos servir.

Esta nova Biblioteca Pública do século XXI é pois muito mais do que o tradicional serviço baseado em livros[9] e pode tornar-se num centro de troca de conhecimento e de cultura, onde as pessoas quererão muitas horas. O nosso objetivo é servir toda a comunidade, com certeza mais de 50% de penetração na nossa comunidade.


Um exemplo frutuoso: as parcerias

Para tal é também necessário estabelecer parcerias com outras instituições públicas locais, oferecendo um misto de serviços à comunidade. Fazendo-o como uma forma de dar a conhecer outros serviços públicos ou de partilhar o espaço com essas outras instituições (Biblioteca Municipal de Avis: serviços de educação e apoio psicológico).

Parcerias que oferecem serviços públicos fiáveis, como orientação e apoio na obtenção de cartões de cidadão e de passaportes, de cartas de condução, de casamentos e ainda apoio a serviços mais pessoais como os impostos, o divórcio, a educação das crianças…

Parcerias com hospitais e centros de saúde que permitam oferecer serviços médicos simples ou formação básica. Tal é o caso Enfield Council’s Ordnance Road Library inglesa que combina os serviços da Biblioteca e o acesso público à saúde, mas também o da nova Unidade Móvel de Anadia que se baseia no trabalho da Bibliomóvel de Proença-a-Nova, ou o caso do apoio ao Hospital do Fundão disponibilizado pela Biblioteca Municipal do Fundão.

Parcerias com os Serviços de Apoio a Crianças em Risco que formalizem este tipo de apoio aos mais jovens, com objetivos,públicos-alvo e contrapartidas bem definidos, de modo a que as bibliotecas não sejam meras babysitters de substituição (Biblioteca Municipal de Anadia.)

Parcerias com estabelecimentos de ensino superior ou Centros de Formação que permitem oferecer formação creditada a diferentes tipos de público: professores (Biblioteca Municipal da Batalha, Biblioteca de Mondim de Basto), adultos (Biblioteca Municipal de Penalva do Castelo)...


Parcerias com organizações e empresas privadas, estas, evidentemente mais difíceis de estabelecer, constituem todavia um território de oportunidades a fomentar (a parceria Padrinhos da Leitura, em Moura, nada mais é do que o convite a pequenos empresários locais para oferecerem a uma turma do 1º ciclo, anualmente, um livro a cada criança, em troca de um diploma institucional). 

Parcerias para obtenção de serviços de cafeteria que podem ser simples máquinas de bebidas e sanduiches ou que podem funcionar muito melhor do que os cafés das redondezas, como é o caso da Biblioteca Municipal de Tavira e da Suzzallo Library USA que abriu recentemente uma nova cafeteria em parceria com Starbucks. Ambos os casos atraem um número considerável de pessoas, muitas das quais não eram utilizadoras da Biblioteca.

Parcerias com empresas loca
is que possam oferecer workshops e formação especializada: a Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão oferece formação especializada sobre permacultura (produção, acondicionamento e mercado) a cerca de 60 agricultores que nunca antes tinham entrado na Biblioteca e que solicitaram posteriormente mais formação.

Temos de nos adaptar e de abraçar a mudança. De modo transformarmos a Biblioteca num espaço comunitário (da comunidade) onde as pessoas possam obter a informação de que necessitam, resolver um problema com que se debatem, ler tranquilamente um livro, participar num workshop, ver uma exposição, tomar um café, fruir de um tempo em família, combinar um encontro com amigos, namorar, estudar para os exames, redigir uma tese … Um lugar de aprendizagem e de troca de ideias, de bem-estar, onde com toda a certeza nos sentiremos… felizes! 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Real Decreto 624/2014, de 18 de julio: pagar mais para ler em Espanha. O projeto de Lei 118 XII: pagar ainda mais para aceder à internet em Portugal

Com a internet, o acesso massificado à cultura estendeu-se mais ou menos livremente a todos os continentes. Na verdade, nunca antes desta era, qualquer autor de qualquer objeto artístico pôde ser tão lido, visto e ouvido.

É por isso que é sobretudo a partir da transição do século que as entidades de gestão colectiva do direito de autor (bem como as grandes empresas multimédia) que se foram constituindo e consolidando a respetiva atividade na Europa, ao longo do século XX, começam a defender o aumento dos Direitos de Autor em detrimento do Domínio Público, ou seja do aceso livre às referidas obras.

No caso específico das Bibliotecas Públicas europeias, aquelas entidades e empresas (nem tanto os autores) constituíram-se num lobby europeu em defesa de legislação que imponha o maior número possível de taxas à utilização e fruição de todos de bens audiovisuais.

Como as Bibliotecas Públicas ao adquirir esses bens já pagavam direitos de autor, a União Europeia avança com legislação que propõe o pagamento de uma taxa pelo empréstimo domiciliário, até então sempre gratuito, de livros, cds e dvds. Os países do Sul da Europa, alegando sobretudo a fragilidade dos hábitos de leitura dos respetivos países, para além do esforço de construção e de manutenção de redes nacionais de bibliotecas públicas, iniciado nos finais do século XX, tentam e conseguem eximir-se e protelar esta imposição legal. Estamos em 2004. Contudo, a pressão de imposição da Diretiva Europeia de Defesa dos Direitos de Autor e Direitos Conexos continua a ganhar terreno.

Em Espanha, por exemplo, quando o governo espanhol adere a esta Diretiva (2007), os bibliotecários públicos organizaram-se no movimento NO AL PRESTAMO PAGO que sistematizou e divulgou amplamente as razões pelas quais as Bibliotecas Públicas não deveriam jamais cobrar o empréstimo aos seus leitores pelas obras compradas por cada Biblioteca.



As principais razões invocadas baseiam-se em todo o trabalho que as Bibliotecas investem na identificação, manutenção e divulgação das obras que detêm, bem como na promoção que fazem dos respetivos autores, inclusivamente quando as obras se encontram esgotadas no mercado.Ver uma breve história da imposição do empréstimo pago aqui.


Contudo, o Estado espanhol acabou, nesse mesmo ano, por assumir o pagamento desta dívida, a cujo valor se chegou com base num cálculo de empréstimos realizados. Com o progressivo avanço das políticas neoliberais que se vêm alastrando por toda a Europa, o atual governo espanhol decide consolidar este ónus cultural. Assim no dia 1 agosto deste ano, ou seja, em pleno Verão, foi publicado no Boletim Oficial do Estado «o Real Decreto 624/2014, de 18 de julio, por el que se desarrolla el derecho de remuneración a los autores por los préstamos de sus obras realizados en determinados establecimientos accesibles al público.»

«Según el real decreto estarán sujetos a la compensación a los autores por el préstamo de obras con derechos de propiedad intelectual los museos, archivos, bibliotecas, hemerotecas, fonotecas o filmotecas de titularidad pública o que pertenezcan a entidades de interés general de carácter cultural, científico o educativo sin ánimo de lucro.» O decreto isenta de pagamento as bibliotecas escolares e os ayuntamentos com menos de 5000 habitantes.

O Conselho de Ministros afirma que este pagamento  «en ningún caso supone cargas para los ciudadanos», na medida em que o real decreto «afecta fundamentalmente las administraciones públicas titulares de estos establecimientos». Todavia, se as bibliotecas públicas espanholas, como tantas outras na Europa e nos EUA, já se debatem com cortes brutais nos seus pressupuestos, tendo mesmo chegado a orçamentos 0 (zero) para aquisição de obras, como poderão pagar agora para a respetiva utilização?


Dados obtidos nesta Plataforma.
Em Portugal, a Diretiva Europeia não foi aplicada com a justificação evidente de que as bibliotecas públicas portuguesas são equipamentos culturais muito recentes, e que se está realizando um enorme esforço da construção e da manutenção da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP). A estes factos acrescem ainda os frágeis hábitos de leitura da população portuguesa.



Contudo, também na sequência do que se passara em Espanha, em 2008 começa a falar-se entre bibliotecários nos perigos da aplicação Diretiva Europeia em Portugal, como se pode verificar pela tomada de posição da BAD (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas).

Em 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores envia um ofício «a diversas entidades titulares de bibliotecas públicas alertando para a necessidade de requerer autorização e pagar uma taxa pela realização de "espetáculos", que incluem atividades de animação e dinamização da leitura habitualmente realizadas em bibliotecas de que é dado como exemplo "A hora do conto"». Na sequência de alguns contactos e alertas para as graves consequências desta situação, como o da BAD, o conselho de administração da SPA anulou o referido ofício.

Em 2013, a Gedipe (Associação para a Gestão de Direitos e Autor, Produtores e Editores) criada em Março de 2012, tenta agora ela fazer cobrar o empréstimo de obras nas Bibliotecas Públicas, sendo de novo contestada, entre outros, pela BAD.

Na impossibilidade de cobrar o empréstimo e, sobretudo, na ausência de investimento significativos em aquisições de obras por parte da maioria das bibliotecas públicas portuguesas, a empresa de gestão de direitos de autor, GEDIPE, concentra-se, à semelhança das suas congéneres europeias. na pressão para que sejam taxados todos os equipamentos que permitem a cópia ilegal, a saber:



O que significa que a partir de hoje o governo de Portugal aprovou o Projeto de lei 118/XII no qual se decreta que a a compra de qualquer destes equipamentos integrará, desde logo, uma taxa destinada a pagar Direitos de Autor, mesmo que quem os compre nunca os utilize e que, se o fizer, o faça, pagando-os deste modo em duplicado.

Em Portugal como em Espanha o acesso livre à cultura por parte de todos encontra-se progressiva, mas incontestavelmente cerceado em prol de uns quantos poucos, entre os quais os autores não serão com certeza quem mais recebe.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dos contos e da narração oral III: o crescimento interior (*)


Grande parte do poder e do fascínio dos mitos e dos verdadeiros contos que atravessam a história da humanidade reside no facto de, mais ou menos inconscientemente, e ao som milenar da voz humana, nos ensinarem a viver os momentos mais difíceis e cruciais da nossa existênciaEm particular nas idades de passagem em que temos de fazer opções fundamentais:

     1) da infância à adolescência, 
     2) da juventude à maturidade,
     3) da meia-idade à velhice e depois à morte.



Quando, nesss períodos difíceis efetuamos balanços do que fomos e somos e do que queremos ou não queremos ser, deixamos de conseguir viver a vida de todos os dias. Muitas vezes em estado de grande perturbação e em sofrimento, necessitamos de percorrer um caminho interior em direção ao centro de nós próprios, ao nosso eu, e para o fazermos precisamos de ajuda, seja através da meditação, da terapia, da introspeção,… dos contos!

Porque o papel e o significado da narração oral e dos mitos na evolução do homo sapiens (o papel dos contos e das histórias na História da humanidade!) é também o de nos propor um caminho avisado para ultrapassarmos estas problemáticas fases da vida, em que questionamos seriamente a vida que vivemos e a pomos em causa.



E tal acontece também porque estes textos nos permitem viver simbólica e subliminarmente estes momentos difíceis, contribuindo assim também para vivermos melhor com os outros. Isto porque o enredo maravilhoso e fantástico que nos encanta esconde a realidade pura e dura. E esta obriga-nos a crescer e a evoluir interiormente, a — sofrendo metamorfoses quase sempre dolorosas, as pequenas mortes — ultrapassar as etapas fundamentais da nossa existência. 

Neste sentido, os grandes contos da humanidade avisam-nos que esses momentos constituem provas perigosas que não podem ser superadas sem se passar por um doloroso e exigente processo iniciático e é este ensinamento que constitui a razão pela qual os contos e as verdadeiras histórias são tão amados, e contados e recontados.

Num esquema de análise simplificado, podemos afirmar que os contos nos remetem para um tempo e de um espaço indefinidos: «Era uma vez, num sítio distante...» onde todos os seres viviam em harmonia, num universo sem História e sem histórias para contar. Tal como as nossas vidas de todos os dias. A história só começa de facto quando o equilíbrio desse tempo-espaço é brutalmente quebrado por forças assombrosas, muitas vezes malévolas.

Depois de várias tentativas, sempre falhadas, de combater o grande MAL, um de entre nós é então convocado para acabar com o terror e o tormento. Em geral o  mais humilde e pequeno de todos: nós, eu (mas eu quem? eu? EU?!). Sim: somos mesmo nós, um ser em geral anódino e insignificante quem vai ter de combater e morrer ou renascer. O que acabará por decidir fazer, depois de ultrapassar hesitações, medo e angústia.

Heroína, quem... eu?
É então que os contos também nos ensinam que, para não ficarmos feridos de morte, nem magoarmos quem nos quer bem, teremos de ter muito cuidado. Teremos de nos proteger, de encontrar aliados, de cumprir normas e regras específicas.

Isolarmo-nos da vida quotidiana 


Assim, em primeiro lugar, temos de nos preparar, escolhendo um lugar especial, sagrado, para aí nos isolarmos e nos distanciarmos da vida que até então levávamos e dela nos purificarmos. Só nesta solidão, que é em si mesma um desafio, poderemos concentrar-nos no muito que nos será pedido e no quanto a nossa vida terá de mudar.

Sermos fortes, corajosos, persistentes, disciplinados 


esta preparação, segue-se um tempo de procura e de indagação para o qual é necessário cumprir alguns rituais e é sempre exigida uma provação física e psicológica. É o único modo de nos fortalecermos para a mais difícil e dura das três fases, a do confronto com o terror, o grande MAL!


Vencer o combate contra o terror e o mal ou a morte é o que nos é exigido


E este confronto é de vida ou de morte porque só ao colocarmo-nos frente a frente perante a morte, conheceremos o justo valor e a própria essência de que é feita a vida que a torna única e insubstituível.

Cumpridos todos estes ensinamentos poderemos então enfrentar o combate e vencê-lo. Dele regressaremos mais fortes e mais sábios, podendo agora estabelecer relações mais equilibradas e enriquecedoras com os outros.

A história termina, assim, com a reposição da harmonia, agora renovada, e a vida volta a pouco e pouco ao quotidiano... 

Até ao próximo «Era uma vez...»


Cinco títulos inspiradores

Psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettelheim. Bertrand, 2011

Mulheres que correm com os lobos de Clarissa Pinkola Estés. Rocco, 2004

La vie, une aventure dont tu es le héros de Florence Bacchetta. La joie de Lire, 1994

O quarto dos horrores de Angela Carter. Caminho, 1991

A infância recuperada de Fernando Savater. Presença, 1997


Como exercício, para além de leitura encantatória, um conto do século X recontado por Italo Calvino...



[O anel do imperador Carlos Magno] in Seis propostas para o próximo milénio de Italo Calvino. Teorema: 1990

e um clássico americano do século XX


O feiticeiro de Terramar de Ursula K. Le Guin. Livros do Brasil, 1980
ou
O feiticeiro e a sombra de Ursula K. Le Guin. Presença, 2011

NB: Muito do que aqui se afirma se deve a dois textos fundamentais do início da minha formação em narração oral e que desde então se encontram presentes na minha prática e na reflexão que dela faço. A eles aqui presto um agradecimento vital:



JANER MANILA, Gabriel [1994] - A los seres humanos les encantan las historias. In I Congresso Nacional del libro infantil y juvenil. El libro y la lectura: memória. Ávila 1993. [Madrid]: Asociación Española de Amigos del Libro Infantil e y Juvenil.

RUFAT PERELLO, Hélène [1996] - Sobre las iniciaciones recuperadas. In I Congresso Nacional del libro infantil y juvenil. [Madrid]: Asociación Española de Amigos del Libro Infantil e y Juvenil.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Aprender a comunicar em público: ler em voz alta e contar (*)

A partir de uma certa altura da vida, damo-nos conta de que domínio da leitura em voz alta e da oralidade são duas competências reservadas a uma elite de profissionais qualificados:

Jornalistas,
políticos,
apresentadores, 
comentadores,
contadores...
A maioria de nós não se encontra devidamente habilitada para o fazer, o que conjuntamente com a incapacidade de nos exprimirmos corretamente por escrito, se traduz numa das grandes falhas da nossa qualidade de vida e da prática efetiva da cidadania em Portugal.

Porque o domínio da oralidade e da escrita permitem-nos ser mais conscientes em relação a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, o que as limitações da nossa democracia demonstram. E, no entanto, a escrita e a oralidade são meras técnicas que se aprendem facilmente na infância e na juventude e mesmo ao longo da vida.

O exemplo mais conhecido desta afirmação são as TED Talks, TED: Ideas worth spreading. Promovidas pela fundação americana sem fins lucrativos, TED, contam-se por milhares as conferências destinadas à divulgação de todo o tipo de ideias na Europa, Ásia e Estados Unidos já disponíveis online.


«TED é uma comunidade global, aberta a pessoas de todas as disciplinas e de todas as culturas, que procura aprofundar o conhecimento do mundo. Acreditamos apaixonadamente no poder das ideias para mudar atitudes, vidas e, em última instância o mundo.» [1984, 2006 (online)…]

Catherine Bracy
Why good hackers make good citizens.
Roselinde Torres
What it takes to be a great leader.
Maya Penn
Meet a young entrepreneur, cartoonist, designer, activist. 
Harish Manwani
Profit’s not always the point.
Diana Nyad
Never, ever give up.
Rose George
Inside the secret shipping industry.
Para ser convidado a falar numa Ted Talk apenas é necessário ter uma ideia inovadora e querer partilhá-la com outros. Nas Ted Talks falam pessoas dos mais diversas idades e proveniências. 





Com certeza que falar de uma ideia em que acreditamos e que levámos à prática constitui de per si uma importante motivação para falar em público.Contudo, se atentarmos bem, todos estes conferencistas são apoiados por uma sofisticada técnica multimédia que lhes permite dominar um anfiteatro cheio de centenas de espetadores. Uma parte das técnicas de apoio, evidentemente.




De entre as mais diversas técnicas de aprendizagem da arte de falar em público, contam-se indiscutivelmente o ensino da leitura em voz alta e o da narração oral. Há quase um século arredadas da escola e da família, estas duas práticas deveriam privilegiar a poesia e os contos. 

Ler em voz alta e contar um conto em público implicam expormo-nos muito mais do que apenas aprender a colocar a voz, a exercitar a memória ou a controlar a exposição física perante uma audiência. O domínio de si mesmo e o domínio da audiência são as grandes conquistas técnicas a empreender, quando dezenas, centenas, mil pares de olhos nos fitam.




Porque prender a atenção de um público durante 15 a 20 minutos não é tarefa fácil, mas não deixa de constitui um treino como muitos outros e, posto em prática, pode torna-se mesmo numa dependência. Temos inúmeros exemplos disso, do star system à política nacional, os famosos 15 minutos de fama de que Andy Warhol fala e a que todos aspirariam, «a celebridade instantânea», podem ser tão poderosos quanto uma droga.



Nestes casos, pode acontecer o pior: perder-se o controle do auditório e o público deixar de nos ouvir. O que acontece, em primeiro lugar porque aquele que fala para um público deixou também de o ouvir. E saber ouvir é hoje outra competência não desenvolvida, nem treinada: por isso também a maioria das pessoas não sabe ouvir.


Psicanalista, escritor e pedagogo brasileiro.
Ora, o treino da escuta é tanto mais necessário quanto vivemos num mundo barulhento, tumultuoso, audiovisualmente hiperestimulante, dominado pelas técnicas agressivas e impositivas de publicidade que nos rodeia. Neste contexto é evidente que também tínhamos de deixar de saber ouvir. Treinar a escuta e o silêncio ativos oferecem-nos concentração e aquietamento interior. E são tão necessários à introspeção e ao conhecimento de nós próprios como à do mundo que nos rodeia.

Tanto a leitura em voz alta como a narração oral implicam, entre outros aspetos, uma apropriação individual e subjectiva do texto, a respetiva interiorização tanto no que concerne ao sentido como aos sentimentos que o texto nos provoca. A leitura em voz alta parece-nos, contudo, uma técnica mais fácil do que a da narração oral, na medida em que aquela nos fornece a segurança do apoio textual. A narração oral implica um esforço mental e emocional provavelmente superior: um conto não se decora, embora se decorem partes do conto e a ligação entre as partes, bem como a ênfase nos pontos de viragem ficam, como a improvisação, por conta de cada um...


National Storytelling Festival, Jonesboroug, Tennesee.
Maratón de los Cuentos de Guadalajara. 

Uma das características da nossa espécie é a de nos contarmos em permanência histórias e narrativas mais ou menos breves, à nossa medida e à medida do nosso quotidiano. A fruição estética e ética da literatura permitem-nos elevar o nosso nível de conhecimento tanto racional como emocional, tanto sobre nós próprios como sobre o meio em que vivemos. Como a psicanálise há um século já nos explicou, o homem que conta humaniza-se e, se se empenhar, ilumina a obscura matéria de que são feitos os sonhos, os pesadelos, os medos e as utopias. 


Porque os mitos e os verdadeiros contos, que atravessam a história da nossa humanidade, ensinam-nos, a tomar o comando das nossas vidas nos momentos mais difíceis e cruciais da nossa existência e da da nossa comunidade. Pautam-se por valores como a identidade, o sentido de pertença, a solidariedade, a partilha, a coragem, a criatividade... Através da associação de imagens mentais, de sensações e de sentimentos mais ou menos inconscientes, ao som milenar da voz humana, a voz que sussurra, que chora e grita, que embala, que canta, que conta. Que nos conta.


(*)  Este post teve uma origem numa comunicação que elaborei para o II Encontro Literário de Leitura em Voz Alta, realizado no Funchal pelo extraordinária Associação Contigo Teatro, em 21 e 22 de março deste ano.