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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dos contos e da narração oral III: o crescimento interior (*)


Grande parte do poder e do fascínio dos mitos e dos verdadeiros contos que atravessam a história da humanidade reside no facto de, mais ou menos inconscientemente, e ao som milenar da voz humana, nos ensinarem a viver os momentos mais difíceis e cruciais da nossa existênciaEm particular nas idades de passagem em que temos de fazer opções fundamentais:

     1) da infância à adolescência, 
     2) da juventude à maturidade,
     3) da meia-idade à velhice e depois à morte.



Quando, nesss períodos difíceis efetuamos balanços do que fomos e somos e do que queremos ou não queremos ser, deixamos de conseguir viver a vida de todos os dias. Muitas vezes em estado de grande perturbação e em sofrimento, necessitamos de percorrer um caminho interior em direção ao centro de nós próprios, ao nosso eu, e para o fazermos precisamos de ajuda, seja através da meditação, da terapia, da introspeção,… dos contos!

Porque o papel e o significado da narração oral e dos mitos na evolução do homo sapiens (o papel dos contos e das histórias na História da humanidade!) é também o de nos propor um caminho avisado para ultrapassarmos estas problemáticas fases da vida, em que questionamos seriamente a vida que vivemos e a pomos em causa.



E tal acontece também porque estes textos nos permitem viver simbólica e subliminarmente estes momentos difíceis, contribuindo assim também para vivermos melhor com os outros. Isto porque o enredo maravilhoso e fantástico que nos encanta esconde a realidade pura e dura. E esta obriga-nos a crescer e a evoluir interiormente, a — sofrendo metamorfoses quase sempre dolorosas, as pequenas mortes — ultrapassar as etapas fundamentais da nossa existência. 

Neste sentido, os grandes contos da humanidade avisam-nos que esses momentos constituem provas perigosas que não podem ser superadas sem se passar por um doloroso e exigente processo iniciático e é este ensinamento que constitui a razão pela qual os contos e as verdadeiras histórias são tão amados, e contados e recontados.

Num esquema de análise simplificado, podemos afirmar que os contos nos remetem para um tempo e de um espaço indefinidos: «Era uma vez, num sítio distante...» onde todos os seres viviam em harmonia, num universo sem História e sem histórias para contar. Tal como as nossas vidas de todos os dias. A história só começa de facto quando o equilíbrio desse tempo-espaço é brutalmente quebrado por forças assombrosas, muitas vezes malévolas.

Depois de várias tentativas, sempre falhadas, de combater o grande MAL, um de entre nós é então convocado para acabar com o terror e o tormento. Em geral o  mais humilde e pequeno de todos: nós, eu (mas eu quem? eu? EU?!). Sim: somos mesmo nós, um ser em geral anódino e insignificante quem vai ter de combater e morrer ou renascer. O que acabará por decidir fazer, depois de ultrapassar hesitações, medo e angústia.

Heroína, quem... eu?
É então que os contos também nos ensinam que, para não ficarmos feridos de morte, nem magoarmos quem nos quer bem, teremos de ter muito cuidado. Teremos de nos proteger, de encontrar aliados, de cumprir normas e regras específicas.

Isolarmo-nos da vida quotidiana 


Assim, em primeiro lugar, temos de nos preparar, escolhendo um lugar especial, sagrado, para aí nos isolarmos e nos distanciarmos da vida que até então levávamos e dela nos purificarmos. Só nesta solidão, que é em si mesma um desafio, poderemos concentrar-nos no muito que nos será pedido e no quanto a nossa vida terá de mudar.

Sermos fortes, corajosos, persistentes, disciplinados 


esta preparação, segue-se um tempo de procura e de indagação para o qual é necessário cumprir alguns rituais e é sempre exigida uma provação física e psicológica. É o único modo de nos fortalecermos para a mais difícil e dura das três fases, a do confronto com o terror, o grande MAL!


Vencer o combate contra o terror e o mal ou a morte é o que nos é exigido


E este confronto é de vida ou de morte porque só ao colocarmo-nos frente a frente perante a morte, conheceremos o justo valor e a própria essência de que é feita a vida que a torna única e insubstituível.

Cumpridos todos estes ensinamentos poderemos então enfrentar o combate e vencê-lo. Dele regressaremos mais fortes e mais sábios, podendo agora estabelecer relações mais equilibradas e enriquecedoras com os outros.

A história termina, assim, com a reposição da harmonia, agora renovada, e a vida volta a pouco e pouco ao quotidiano... 

Até ao próximo «Era uma vez...»


Cinco títulos inspiradores

Psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettelheim. Bertrand, 2011

Mulheres que correm com os lobos de Clarissa Pinkola Estés. Rocco, 2004

La vie, une aventure dont tu es le héros de Florence Bacchetta. La joie de Lire, 1994

O quarto dos horrores de Angela Carter. Caminho, 1991

A infância recuperada de Fernando Savater. Presença, 1997


Como exercício, para além de leitura encantatória, um conto do século X recontado por Italo Calvino...



[O anel do imperador Carlos Magno] in Seis propostas para o próximo milénio de Italo Calvino. Teorema: 1990

e um clássico americano do século XX


O feiticeiro de Terramar de Ursula K. Le Guin. Livros do Brasil, 1980
ou
O feiticeiro e a sombra de Ursula K. Le Guin. Presença, 2011

NB: Muito do que aqui se afirma se deve a dois textos fundamentais do início da minha formação em narração oral e que desde então se encontram presentes na minha prática e na reflexão que dela faço. A eles aqui presto um agradecimento vital:



JANER MANILA, Gabriel [1994] - A los seres humanos les encantan las historias. In I Congresso Nacional del libro infantil y juvenil. El libro y la lectura: memória. Ávila 1993. [Madrid]: Asociación Española de Amigos del Libro Infantil e y Juvenil.

RUFAT PERELLO, Hélène [1996] - Sobre las iniciaciones recuperadas. In I Congresso Nacional del libro infantil y juvenil. [Madrid]: Asociación Española de Amigos del Libro Infantil e y Juvenil.

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