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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Portugal, 2013: por que tanto precisamos hoje das Bibliotecas Itinerantes! *

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


Hola a todos!

O meu nome é Vera Oliveira, sou uma bibliotecária de leitura pública sénior e trabalho no apoio às Bibliotecas Públicas, a partir da administração central, mais concretamente na Direção-Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas. Sou portuguesa, tenho 57 anos e tive a sorte de poder dedicar a maior parte da minha vida profissional a um trabalho de que gosto muitíssimo.




Não «tenho», como todos vocês, nenhuma biblioteca pública, nem fixa, nem itinerante. Mas sou uma bibliotecária pública por vocação e, também enquanto cidadã, considero um pouco minhas todas as Bibliotecas Públicas. Nelas sinto-me em casa. E, como a maioria dos bibliotecários portugueses, tenho as Bibliotecas Itinerantes no coração.


Foto de aqui.

Em Portugal, não deverá haver muitos portugueses maiores de trinta e cinco anos que não saibam o que é uma Biblioteca Itinerante. Tivemos essa sorte! Num dos países mais pobres e analfabetos da Europa da época, uma fundação, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), investiu numa Rede de Bibliotecas Itinerantes (e depois também fixas) que cobriu todo o território nacional entre 1960 e 1990.

Um, de entre muitíssimos outros exemplos: o ex-Secretário de Estado da Cultura, jornalista e escritor Francisco Viegas, 51 anos.



Foto de aqui.
Na aldeia do Douro onde nascera e onde em adolescente ia passar férias, uma das coisas que tínhamos era a carrinha da Gulbenkian, algo mítica para minha geração. O senhor Sousa deixava-nos levar da carrinha três livros por pessoa. Eu levava a minha tia, porque assim trazíamos seis. E foi nessa altura, em 1975, 1976 que li Cem anos de solidão pela primeira vez. À minha volta mudou o interesse pelos livros, e o facto de ler com disponibilidade marcou-me bastante.1

As Bibliotecas Itinerantes FCG  entre 1958  e 1982

A primeira experiência, Cascais - 1953.

Bibliotecas FCG, a imagem de marca.
Exemplar restaurado.
Último modelo FCG a funcionar.
Os números2 de que dispomos ainda hoje são impressionantes: 

Número de Bibliotecas Itinerantes da FCG:
1958 – 15
1961 – 47
3
1984 – 59 (e 166 Bibliotecas fixas)
Número de livros requisitados:1958 -1962: 8 675 774
1968-1972: 27 191 250
1978-1982: 22 573 900
                 TOTAL (1958-1982): 106 033 684

Número de leitores atendidos:
1958-1962: 2 571 212
1968-1972: 7 890 879
1978-1982: 7 346 573
                TOTAL (1958-1982): 31 977 700

Os livros adquiridos foram na ordem de milhões. Em 1965, a FCB tinha já então comprado mais de 1 700 000 livros para todas as suas bibliotecas
.4

A acrescentar a esta dádiva, o trabalho da FCG em Portugal selou uma «ligação» entre as Bibliotecas Itinerantes e as Bibliotecas Públicas Municipais, que no futuro facilitaria a gestão do pessoal e da documentação. Ao ser iniciada a construção da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (1987), estas novas e modernas Bibliotecas procuraram sempre que possível integrar as da FCG, tanto as fixas como as itinerantes.

Como já aqui referi, na transição do milénio, a reivindicação e a construção em vasta escala de novas bibliotecas públicas declaradamente abertas a todos os cidadãos, em Portugal e na Europa, foi acompanhada de uma inequívoca mudança em relação à tradicional missão cultural e de ensino, de matriz anglo-saxónica.




As novas mudanças

Local de múltiplos eventos e encontros os mais diversos, a polivalência cultural e cívica é agora a marca indelével das Bibliotecas Públicas, cada vez mais versáteis e disponíveis para acolher todo o tipo de públicos e para apoiar a sua comunidade e fortalecer a democracia.5

Esta nova biblioteca pública, para além de lugar de aprendizagem, tornou-se assim também um lugar para se estar e para se (con)viver. Distante das grandes bibliotecas centradas no empréstimo massivo, sem espaços de estudo e sem utilizadores durante as horas de trabalho, encontramos agora edifícios abertos, desenhados com preocupações estéticas e de acolhimento dos utilizadores para as mais diversas atividades.



Dois exemplos:


A Biblioteca de São Brás de Alportel, Portugal

Fachada exterior.
Reunião do clube de leitura.
Foto do Grupo Coral de São Brás que ensaia na Biblioteca.
Pátio interior da Biblioteca: festa do 1º. aniversário do Projeto Aventura.

A Biblioteca de Pública Provincial de Guadalajara, Espanha


Palácio do Dávalos, fachada exterior.
Sala de estudo e de leitura: 300 lugares.
Jantar anual dos clubes de leitura na sala de estudo (2013).
Baile dos clubes de leitura no pátio interior (2013).
Assim, as Bibliotecas Públicas têm vindo a tornar-se num verdadeiro centro cívico que oferece atividades culturais, sociais e educacionais. Intensamente focada nos utilizadores, entrecruza e reforça serviços físicos e virtuais. Aqui, as pessoas leem, trabalham, acedem à Internet, frequentam cursos, presenciais ou a distância, encontram-se, veem exposições, assistem a conferências e debates, e participam em eventos culturais de todo o tipo.6,7,8,9

Tudo o que acabo de referir se aplica hoje mais do que nunca às Bibliotecas Itinerantes, a melhor extensão cultural da Bibliotecas Públicas. E, se cada vez mais, se fala na importância das Bibliotecas Públicas e das suas itinerantes como forma de revitalização do meio rural, elas são igualmente importantes na humanização dos grandes concentrações suburbanas em torno das grandes cidades, onde o desregulamento do parque habitacional, a pobreza e a violência constituem a matriz da vida quotidiana.

Em Portugal, mais de 60% do território nacional encontra-se sob ameaça da desertificação humana (dados de Junho de 2013)10, tendo a área suscetível de desertificação do território continental português crescido em 75% ao longo dos últimos dez anos (2011)11.


Colmeal, Figueira de Castelo Rodrigo: a primeira aldeia abandonada em Portugal (ca 1960).
Sem os seus guardiões, os agricultores e a população rural,12 este abandono do território traduz-se na desestruturação das famílias enquanto unidades produtivas e na diminuição da qualidade de vida. O abandono do cuidado dos campos e da floresta conduz, por sua vez, ao aumento das possibilidades de erosão, à diminuição da produtividade dos solos e à redução drástica da biodiversidade.

Mapa do (des)povoamento do território português.
Por seu turno, o correspondente crescimento da pobreza urbana devido à permanente migração para as grandes cidades potencia o crescimento suburbano descontrolado, o aumento da poluição e os problemas ambientais urbanos, para além da miséria e da violência sociais.13


Na cidade.
Degradação urbana.
A análise comparada dos objetivos da Rede de Bibliotecas Itinerantes Gulbenkian (anos 1960-1990) e dos objetivos para as Bibliotecas Itinerantes atualmente definidos pela IFLA mostra-nos a assunção progressiva deste salto qualitativo na missão das Bibliotecas Itinerantes.

Em 1960, a Rede de Bibliotecas Gulbenkian tinha por objetivo «cobrir todo o território nacional, dirigindo-se ao:

1. público de menor acesso à educação e cultura que habitava
2. as regiões mais desfavorecidas, e procurava
3. chegar a todas as faixas etárias.

Eram objetivos da Rede de Bibliotecas Móveis da Fundação Calouste Gulbenkian:
1. promover e desenvolver o gosto pela leitura,
2. elevar o nível cultural dos cidadãos.


Como ? Através de …

1. livre acesso às estantes,
2. empréstimo domiciliário e
3. gratuitidade do serviço.»

Os objetivos da IFLA para as Bibliotecas Itinerantes são os mesmos dos das Bibliotecas Públicas e encontram-se enunciados no Manifesto da Unesco que todos conhecemos. A evolução é EVIDENTE:

1. Criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância;
2. Apoiar a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis;
3. Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;
4. Estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens;
5. Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas;
6. Possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo;
7. Fomentar o diálogo intercultural e a diversidade cultural;
8. Apoiar a tradição oral;
9. Assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local;
10. Proporcionar serviços de informação adequados às empresas locais, associações e grupos de interesse;
11. Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;
12. Apoiar, participar e, se necessário, criar programas e atividades de alfabetização para os diferentes grupos etários.

Há, todavia, outros objetivos não explícitos que os bibliotecários móveis, talvez mais do que todos os outros bibliotecários, conhecem bem:

  • Cuidar dos outros; 
  • Abrir horizontes; 
  • (Re)construir uma identidade local transgeracional; 
O que implica também contribuir para humanizar o território, seja através do incentivo e do apoio ao regresso ao mundo rural14, seja na intervenção em bairros urbanos degradados e, para humanizar o quotidiano, construindo redes de entreajuda e de afetos.

Assim, em 2013, os novos serviços da Bibliotecas Itinerantes, dando já como adquiridas a prática da educação informal e 
a ligação à Internet, devem abranger:
  • A agilização de toda a informação e comunicação entre a população e a autarquia, incluindo pagamento de serviços, licenças... 
  • A integração de atividades diversificadas de extensão cultural: os projetos «ciência viva», a narração oral, a música, etc. 
  • A revalorização da tradição popular concelhia em todas as suas valências: literatura oral, usos e costumes, gastronomia… através da recolha de relatos dos mais velhos e com base em princípios e critérios de investigação a partir de ligação às universidades. 
Algumas bibliotecas itinerantes, como a de Nuno Marçal, bibliotecário em Proença-a-Nova, já o fazem! As fotografias que publica no seu blogue disso dão testemunho:


Ir onde ninguém vai,
assumindo-o como um compromisso!
Mostrar o que nunca se viu
e ensinar a usar as novas tecnologias.
Valorizar as tradições culturais,
recolhê-las,
promovê-las e divulgá-las.
Há, contudo, uma outra valência que deveria ser urgentemente experimentada, pelo menos em Portugal: a «fusão» entre bibliomóveis e unidades móveis saúde (UMS) existentes no meu país.

Em Portugal, os fundos comunitários financiaram na década de 2000 os municípios rurais, para aquisição e funcionamento de bibliotecas móveis e de unidades móveis de saúde. A estas compete a prestação de cuidados de saúde primários, na área clínica e de enfermagem, apoio domiciliário, saúde escolar, vacinação e vigilância do estado de saúde de comunidades que vivem isoladas.
15



UMS de Sernancelhe.
UMS de Arouca.
UMS de Lagoa.
UMS de Borba.
Com o aprofundar da crise, muitas destas carrinhas, bem como algumas das bibliomóveis, foram desativadas alegadamente pelos custos envolvidos na sua manutenção, sobretudo os relativos ao pagamento de salários dos técnicos de saúde. Incentivar a reunião destas duas valências numa única carrinha deveria ter por base a noção de cuidados a prestar à comunidade e ser realizada a partir de uma reflexão conjunta entre os profissionais envolvidos que estudassem a melhor forma de integração das duas valências numa única unidade móvel. Este dois em um seria aceite pelas populações como uma benção e potenciaria as valências dos dois tipos de carrinhas: Mens sana in corpore sano!


A noção de «cuidados»

A noção de «cuidados» é uma noção que só agora começa a ser estudada e avaliada em termos económicos e sociais. Abrange as intervenções que têm por objetivo manter, atender, reequilibrar ou cuidar da família e da comunidade. Na prática são os trabalhos invisíveis e as tarefas obscuras repetidas todos os dias da vida (na sua maioria dispensados por todas as mulheres em toda a parte do mundo) que têm garantido a sobrevivência das sociedades humanas e da própria vida: os trabalhos de criação (crianza), de manutenção da capacidade produtiva de um terreno, de regeneração de um território devastado, de transmissão de saberes sobre a saúde ou sobre alimentos….

Estes trabalhos de cuidados constituem esteios (puntales) de vida e são chaves para a sustentabilidade.… Realizados sem horários, em permanente e incessante luta contra a corrente de todo o tipo de carências: desordem, sujidade, falta de alimentos, abandono afetivo e efetivo.16

Uma nova noção bem conhecida dos bibliotecários itinerantes!

Em Portugal, as Bibliomóveis sempre cuidaram das populações: com os livros levavam notícias e informações regionais e nacionais, transportavam encomendas entre povoações distantes, levavam cartas de amor às escondidas. Hoje, muitos dos bibliotecários itinerantes também o fazem, de outras formas e com outros meios.

As bibliotecas itinerantes acompanharam os tempos, adaptaram-se e modernizaram-se, tecendo desde sempre redes de leituras e de afetos nos mais distantes e isolados concelhos portugueses. Em pequenas carrinhas (o que lhes traz duas vantagens: percorrer as mais difíceis estradas do nosso país e serem conduzidas por qualquer pessoa que detenha uma simples carta de condução), as bibliomóveis portuguesas oferecem centenas de itens (entre livros, revistas, cds e dvds) e acesso à Internet. Mas, sobretudo, vão aos confins mais solitários e aos locais mais deprimidos do nosso país o que significa que cuidam das populações que aí vivem.

Os estudos realizados sobre a relação custos-resultados da atividade das carrinhas itinerantes revelam altos índices de produtividade, ou seja, em termos económicos, o retorno do capital investido numa bibliomóvel só aparentemente pode ser considerado elevado (Cf. Alberto Pérez Tapia e Mercedes Santiago Calvo).17 Para além dos apoios concedidos por diferentes parceiros locais, como o dono do café, a coletividade local ou a escola…, estes autores sublinham um facto que os decisores políticos não costumam ter em conta: los bibliobuses también crean espacios públicos donde reunirse… y, como se diz em espanhol,… hacer comunidade.

Quanto vale hacer comunidad?

A manutenção do trabalho dos bibliobuses implica:

1. um investimento financeiro inicial e de manutenção, por parte do poder político,

2. um investimento em estudo, trabalho, reflexão e criatividade permanentes, por parte das respetivas equipas técnicas,
+
3. amor ao que se faz e espírito de missão!

Necessitamos, agora mais do que nunca, de estudar e de trabalhar muito, de reunir esforços e de partilhar projetos. E de… uma grande dose de sonho, de preferência em formato XXXL, o formato dos sonhos verdadeiramente importantes na vida.

Jesús Martín-Barbero.
Jesús Martín-Barbero, conhecido semiólogo e filósofo colombiano, afirma que o exercício da cidadania requer, por parte de cada um de nós, a capacidade de contarmos a nossa própria história e a da nossa comunidade. Este é o único modo de refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmo a vida que vivemos. Para tal, precisamos de dominar a leitura, a escrita e a oralidade, de saber ler, escrever e falar em público.18

Por isso, estou segura de que, mais do que apenas o lugar e o meio de transmissão do conhecimento e do saber em todas as áreas das ciências e das artes, a Biblioteca Pública e a sua melhor extensão móvel, a Biblioteca Itinerante, são um lugar de aprendizagem da cidadania, do eu na relação com o outro, simultaneamente igual e diferente de mim. Um lugar de sociabilização, onde se promove a discussão elevada de todas as ideias. Um lugar de ampliação da consciência da identidade individual e comunitária. Um lugar de vitalidade psicológica é física: Mens sana in corpore sano! , uma das principais características das bibliotecas resilientes, como tão bem nos explica a bibliotecária americana Karen Muro em «Resiliencia frente a sostenibilidad: el futuro de las bibliotecas».19

Na história das Bibliotecas Itinerantes, tudo começou com um sonho: 
«levar livros a todos em todo o lado».

Dos países mais desenvolvidos aos mais carenciados, hoje como há 100 anos atrás, os bibliotecários itinerantes continuam a sonhar agora em:
«levar a cidadania a todos em todo o lado»! 

Queridos bibliotecários mobiles, españoles e portugueses, muchísimas gracias por «escutar-me» desde Lisboa.


Vera Oliveira








18 de Outubro de 2013

_______________________________

Nota préviaPost redigido a partir da comunicação apresentada ao 6º. Congresso de Bibliotecas Mobiles da ACELBIM: Burgos, 18 -21 de outubro de 2013, no qual não me foi possível estar presente.


Notas e bibliografia

1 Maxim Portugal, Jul/Ago 2013, p. 53.

2 Boletim Cultural: Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas. Vinte e cinco anos ao serviço da leitura. Fundação Calouste Gulbenkian, VI série, nº 2, Junho de 1084.

3 http://pt.wikipedia.org/wiki/Bibliotecas_Itinerantes_da_Funda%C3%A7%C3%A3o_Calouste_Gulbenkian

4 http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/wp2004/WP1-2004.pdf

5 http://www.finlandia.org.br/public/default.aspx?contentid=124121.

6 http://www.libraries.fi/en-GB/libraries/

7 http://slq.nu/?article=denmark-the-public-libraries-in-the-knowledge-society

8 Para saber mais: http://www.bs.dk/publikationer/english/library_policy/

9 http://napleblog.wordpress.com/about/

10 http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=3269526

11 http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=2077793 e http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/ei/unccd-PT/event/docs-semin/semin-iber

12 http://www.publico.pt/ciencia/noticia/perito-defende-que-combate-a-desertificacao-deve-ser-um-servico-pago-1387075

13 http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/84.pdf

14 http://vimeo.com/42412852 terra dos sonhos

15 http://www.arsalentejo.min-saude.pt/saudepublica/CuidadosProximidade/UnidadesMoveisSaude/Paginas/UnidadesMoveisSaude.aspx 

16 Yaro Herrero, Fernando Cembranos e Marta Pascual (coord.) – Cambiar las gafas para mirar el mundo: una nueva cultura de la sostenibilidad. Madrid: Libro sen Acción, 2011, p181.201

17 http://www.bibliobuses.com/documentos/El%20Bibliob%C3%BAs%20%C2%BFun%20sistema%20de%20informaci%C3%B3n%20en%20decadencia%20revisi%C3%B3n%20bibliogr%C3%A1fica.pdf

18 http://www.mediaciones.net/category/oralidades/


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Marvão: a Bibliotecária que era a Biblioteca Pública!

Durante vários anos afirmei que no concelho de Marvão a Biblioteca Pública Municipal era a Biblioteca Itinerante. Dadas as características deste concelho desertificado do interior, mencionei diversas vezes este exemplo, devidamente contextualizado, como uma excelente opção para rentabilizar meios e recursos por parte do poder local.

Estava contudo enganada! A Biblioteca Pública era afinal ... a sua bibliotecária, Catarina Machado. Sob a coordenação desta jovem, também arquivista e ainda técnica de turismo, a Biblioteca Itinerante percorria 11 localidades do concelho, de modo a tentar chegar a todos os seus cerca de 3500 habitantes. Complementarmente, assegurava, na Casa da Cultura, o projeto «Leituras Partilhadas» serões que reuniam a comunidade em torno do diálogo sobre ( e a propósito) dos livros e das leituras.  

Sem qualquer explicação devidamente justificada, em 2010, a Autarquia dispensou os serviços da bibliotecária e a Biblioteca Itinerante encerrou. Os livros deixaram de circular e as leituras de ser partilhadas. O concelho ficou evidentemente ainda mais pobre e com menos qualidade de vida!

O que eu corri para a encontrar...
Esta mulher tornara-se para mim uma lenda: a Biblioteca Municipal era ela! 
A Biblioteca Itinerante do Concelho de Marvão surgiu no âmbito das iniciativas promovidas pelo, à epoca, designado Projeto de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social, dirigido sobretudo para as áreas social e cultural. A iniciativa coubera então a uma jovem e dinâmica animadora cultural que, em 2003, reuniu o espólio inicial (maioritariamente oferecido por câmaras municipais e editoras) e concebeu a Biblioteca Itinerante. Nessa altura, a Biblioteca era apenas uma pequena carrinha, tanto quanto possível adaptada a este objetivo e circulava apenas às 4ªs. feiras por várias localidades do Concelho.

O sucesso desta mini-Biblioteca Itinerante foi tal, que a Autarquia decidiu investir neste serviço público. Foi assim comprada uma verdadeira Carrinha Itinerante, devidamente adaptada e equipada com um computador portátil e um acervo documental, agoramuitíssimo ampliado e diversificado dada a aquisição de muitos livros e material multimédia. É neste contexto que Catarina Machado assume, para além do Arquivo Municipal, a responsabilidade pela novíssima Biblioteca Pública de Marvão. 

Marvão- 2008
A nova Biblioteca itinerante de Marvão começou a circular em Dezembro de 2004 e, a partir desta data, apenas irá parar no período transição para a tutela da Autarquia, conforme previsto no referido programa. A catalogação e o empréstimo foram informatizados com software específico (Porbase 5). Em 2006, a Biblioteca Itinerante de Marvão passa a circular por 11 localidades das quatro freguesias do concelho, onde marca presença de 15 em 15 dias. Em 2010, contava com mais de 500 leitores registados e realizava uma média de mais de três centenas de empréstimos mensais.
   
Marvão - 2010
Sem outra explicação que não a de uma visão redutora de contenção de despesas, a Autarquia dispensa em 2010 os serviços de Catarina Machado. Marvão deixou de ter Biblioteca Pública e o acesso ao Arquivo Municipal passou a ser muitíssimo condicionado. A população perdeu qualidade de vida e a desertificação do interior do nosso país ganhou novo impulso.

Mesmo assim, Catarina Machado não desistiu de Marvão. Proativa e dinâmica, a jovem montou uma mini-micro-empresa: A Mercearia de Marvão que abriu este ano: vende e promove produtos tradicionais e artesanais para os turistas e para os residentes in loco e online. Tem dado muito que falar nos media, ou não fosse a Catarina um exemplo de criatividade e de persistência: ou não tivesse ela sido, enquanto pode, também bombeira voluntária!

Porta de entrada.
Interior (foto de Raul Ladeira).
A diferença... está sempre nos pormenores!
Perdemos uma extraordinária Bibliotecária de Leitura Pública e não nos parece que tenhamos assim tantos técnicos superiores de excelência para que um concelho como Marvão deles tão facilmente possa abdicar... Mas a vida dá muitas voltas e a verdade é que Marvão não a perdeu enquanto cidadã. Ganhou uma jovem empresária. E, sempre que algum investigador o solicita, é ela quem, voluntária e graciosamente, é ainda a arquivista de referência do concelho.

terça-feira, 24 de julho de 2012

«Abraçar o mundo sem deixar ninguém de fora II»: as Bibliotecas Itinerantes *

BIBLIOTECAS ITINERANTES:  estrelas mediáticas

Se as grandes protagonistas da leitura pública são as Bibliotecas-caixa, as verdadeiras estrelas dos serviços de extensão bibliotecária e cultural são as bibliotecas itinerantes, também conhecidas por Bibliomóveis ou Bibliobuses. Dos países mais desenvolvidos aos mais carenciados, as bibliotecas itinerantes continuam a ser consideradas das mais vívidas e melhor conseguidas «fórmulas» de biblioteca. Concebidas para ir (mais) longe, onde a maior parte das pessoas não vai, e acarinhadas por bibliotecários sensíveis, as bibliotecas itinerantes têm, há mais de um século, e cada vez mais, leitores fervorosos literalmente em todo o mundo.

Os primeiros bibliomóveis eram basicamente armários com estantes montados em carroças puxadas por cavalos:

 
Por isso, o primeiro bibliomóvel português, criado por Branquinho da Fonseca, conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, em 1953, é na realidade uma actualização dos primeiros bibliomóveis dos países anglo-saxónicos, tal como Augusto Ataíde preconizara em 1914.   



Como é do conhecimento da maioria dos portugueses adultos e mais velhos, foi a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) que, na segunda metade do século XX, desenvolveu este serviço em todo o território nacional. Pela primeira vez, no nosso país, os livros chegavam massiva e livremente a (quase) todos os que quisessem ler.

 

Último modelo ainda oferecido pela FCG (ca 2000).
No início dos anos setenta a Gulbengian dotara o país de 63 unidades móveis (e 166 unidades fixas) que no seu conjunto cobriam todo o país. Com o desenvolvimento do Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas a partir de 1987, a FCG vai propondo a «transição» das suas bibliotecas itinerantes e fixas para os respectivos municípios, os quais, apoiados pela administração central, vão progressivamente assumindo a gestão e o desenvolvimento das bibliotecas municipais e, em consequência, dos serviços de extensão bibliotecária. Desta transição constitui exemplo, entre tantos outros, a Bibliomóvel de Viana do Castelo que, com o apoio da FCG entre 1994 e 2002, percorria 800 kms por mês, com uma paragem mensal em todas as freguesias do concelho.

 

As bibliotecas itinerantes acompanharam os tempos, adaptaram-se e modernizaram-se, tecendo sólidas redes de leituras e de afectos nos mais distantes e isolados concelhos portugueses. Na sua maioria de pequena dimensão (o que lhes trás duas vantagens: percorrer as mais difíceis estradas do nosso país e serem conduzidas por qualquer pessoa que detenha uma simples carta de condução), as bibliomóveis oferecem centenas de itens (entre livros, revistas, cd e dvd) e acesso à Internet. Mas, sobretudo, cuidam das populações dos confins mais solitários do nosso país. Como a biblioteca itinerante de Arouca que percorre todas as freguesias do concelho, nomeadamente as que se encontram mais longe da sede:


Ou a do Fundão que disponibiliza livros, mas também, DVDs e CDs em visitas quinzenais. O horário é afixado nas juntas de freguesia, igrejas ou escolas.



O Bibliomealhada, o maior bibliobus português, é um autocarro transformado pelos próprios funcionários da autarquia em biblioteca itinerante. Tem zona de leitura, um pequeno anfiteatro e acesso à Internet. Faz paragens em 25 lugares das 8 freguesias do concelho. As escolas do ensino básico e jardins-de-infância recebem mensalmente a mala «Livros em Viagem». Os lares e centros de dia recebem os «(A)braços da Biblioteca Municipal», cestos com livros CDs e DVDs.



No concelho de Marvão, a Biblioteca Pública era, até 2010, a carrinha itinerante: Catarina Machado, a bibliotecária (e também arquivista), percorria as quatro freguesias do concelho de modo a chegar a todos os seus cerca de 3500 habitantes. Depois a Autarquia dispensou os serviços
 da bibliotecária e a Biblioteca encerrou as portas, digamos assim. O concelho ficou evidentemente ainda mais pobre!

Marvão- 2008
Marvão - 2010

Nos últimos anos, cada vez mais autarquias e bibliotecas municipais têm vindo a dar-se conta das imensas potencialidades das bibliotecas itinerantes na promoção da leitura e da cidadania no nosso país, tornadas de novo evidentes com o trabalho desenvolvido pelas cerca de 70 bibliomóveis que actualmente circulam no nosso país. De entre estas, é forçoso destacarmos a de Nuno Marçal que, para além de assegurar a presença da Bibliomóvel em todo o concelho de Proença-a-Nova, a divulga como nenhum outro no seu blogue O Papalagui: crónicas de um bibliotecário ambulante.



Projecto «Ciência para todos» na Bibliomóvel de Proença-a-Nova - 2009

As actuais bibliotecas itinerantes orgulham-se do seu trabalho que as populações tanto apoiam e apostam numa imagem forte, como a de Loulé ou a de Vila Franca de Xira.



A Biblioteca Andarilha de Beja, inaugurada em 2009, a de Grândola em 2011 e a de Penedono em 2012 são as mais recentes bibliotecas itinerantes do nosso país que conta presentemente (Agosto de 2012) com 71 Bibliotecas itinerantes em actividade.

Beja - 2009
Grândola - 2011
Penedono - 2012

Para conhecer melhor as cada vez mais dinâmicas Bibliotecas Itinerantes, consulte O papalagui, o blogue de Nuno Marçal e A Nave Voadora, o directório das Bibliotecas Itinerantes Portuguesas da autoria de João Henriques. Mais, contacte-os e contribua para a actualização de A Nave Voadora e para o projecto de recolha de fotografias de todas as nossa Bibliomóveis de Nuno Marçal!