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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dos contos e da narração oral II: os rios sagrados, Vila Velha de Ródão

Por iniciativa e sob a orientação do Prof. Luís Raposo, reconhecido especialista em arqueologia (Museu Nacional de Arqueologia / Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), teve lugar, de 9 a 12 de Julho, em Vila Velha de Ródão o 1º. Encontro Nacional sobre Contos Indígenas dedicado à temática ancestral dos rios, enquanto entidades sagradas. 
Folheto de divulgação
Concebido em parceria com a Direção Geral do Livro,dos Arquivos e das Bibliotecas e com a Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão (local onde o Tejo guarda um extraordinário complexo de arte rupestre, 80% submerso em 1976 pela barragem de Fratel), neste Encontro procurou reunir-se a reflexão teórica oriunda de diversas áreas do conhecimento à recolha da literatura oral portuguesa e à vivência da narração oral dos nossos dias.


Esta iniciativa teve, entre outros, o grande mérito de levar os presentes a pensar a propósito das narrativas ancestrais na visão que temos do mundo, na medida em que se procurou identificar um universo tão remoto que nos é quase completamente desconhecido. Para tal, foi com certeza significativo o facto de este Encontro ter decorrido na sequência do projeto espanhol realizado pela associação de promoção da leitura de Guadalajara, SLIJ, Espanha «Em busca do fogo das Histórias» que relatámos no post anterior.

Da reflexão entre os diversos especialistas em arqueologia, literatura oral, literatura portuguesa e narração oral, chegou-se à conclusão de que apurar este tipo de narrativas arcaicas pressupunha um imenso trabalho de resultados incertos. Na realidade, tal implica tentar retirar às poucas histórias portuguesas da tradição oral conhecidas que mencionam rios (na sua maioria lendas), milhares de anos de ocupação humana de culturas de diferentes épocas. Um trabalho de investigação muito aliciante, que requer um esforço de projeção imaginativa, para chegar a conclusões tão aproximadas quanto instáveis.

Reunião de trabalho na Biblioteca Municipal.

Ao longo dos trabalhos, detetaram-se, contudo, alguns tópicos recorrentes nas lendas recolhidas em Portugal (v. http://www.lendarium.org/). Os rios, entre os quais, o Tejo, o Douro, o Guadiana e outros falam, cantam, ralham, gritam, eles próprios ou, mais frequentemente, seres que neles vivem e deles fazem parte: personagens mágicas (luzes, fogos fátuos, sereias, cobras com cabeleiras…) Na sua  maioria, as intrigas induzem a um afastamento entre os humanos e estes seres, nem sempre maléficos, ou à incapacidade de realizar o que lhes é designado: ao avistar ou ao ouvir estas entidades/seres, é proposto, a quem os vê, fazer alguma coisa que o conseguirá ou,em geral, não conseguirá levar a cabo… 

A mitologia inerente aos rios sagrados parece ser mais clara e definida em lendas brasileiros ou africanas, cujas narrativas mais arcaicas não sofreram tantas incorporações de outras culturas mais recentes, como é o caso da Península Ibérica e mais concretamente de Ródão que regista diferentes ocupações humanas desde há 30.000 anos atrás até aos nossos dias. Um dos contos recolhidos pela narradora Ana Sofia Paiva, originário do Brasil, bem como um outro de Mia Couto, mencionado por Carlos Marques, comprovam em parte esta assunção.

A colaboração conseguida pelo Museu Nacional de Arqueologia, com o Clube de Arqueologia do Externato Frei Luís de Sousa de Almada, revelou-se uma proposta de integração da narração oral no ensino da pesquisa do quotidiano de tempos mais remotos.



Foi assim que cerca de 40 jovens se juntaram aos narradores para aprenderem o que é a narração oral, qual a sua força e o seu fascínio. 

Aprender a contar no século XXI.

Para tal, foi dedicado um dia ao trabalho com os jovens que traziam histórias redigidas em grupo e as queriam ler no Festival Popular que se realizou no sábado dia 12, ao início da noite. Deste trabalho, conduzido pelos quatro narradores  ao longo de várias horas, resultou para estes jovens num primeiro contacto prático com a narração oral como é entendida hoje, na Europa do século XXI. 
Ana Sofia Paiva.
António Fontinha.
Carlos Marques.
Patrícia Amaral.
Rodolfo Castro.
O Festival Popular teve lugar ao ar livre, na noite de lua cheia de 12 de Julho, com o Tejo como pano de fundo. Contaram, em primeiro lugar, o Prof. Luís Raposo:

O primeiro contador da noite.
Contaram depois quatro jovens do clube de arqueologia que decidiram contar (e não ler) as suas histórias e, de seguida, uma jovem de Vila Velha de Ródão que fora integrada no grupo do Clube de Arqueologia: 


Os jovens contadores.
No final, foi a vez dos contadores profissionais. No seu conjunto, este Festival revelou, a um público de cerca de 150 pessoas que desconhecia este universo, o poder e o encantamento dos contos. Presentes desde os mais remotos tempos da nossa espécie, os contos, a voz humana que narra, em conjunto com o canto e a música, constituem parte integrante de nós e a respetiva recuperação, na transição do século, para a realidade e para o quotidiano na Europa, na América e mesmo em África, comprova-o. 


O Festival profissional.
Os resultados concretos desta iniciativa só podem ser considerados como muito positivos. Em primeiro lugar, foi já anunciada a continuidade deste  Encontro que culmina num Festival Popular, estando já agendado o 2º. Encontro. Este deverá ter lugar na Páscoa de 2015 no município do Alandroal, contando igualmente com o apoio da respetiva autarquia, e deverá ser subordinado ao tema geral Lugares Mágicos em Portugal. A arqueologia e o efabulário popular

No que respeita a Vila Velha de Ródão, Graça Baptista, responsável pela Biblioteca Pública, afirmou querer trabalhar a narração oral, eventualmente com base na literatura tradicional da região, combinada ou não com textos de autor. Esta iniciativa poderá vir ainda a integrar ou não o projeto europeu proposto e em avaliação pela Professora Natividade Pires do Politécnico de Castelo Branco.


Também o Externato Frei Luís de Sousa, de Almada, se maravilhou com os contos e nos falou da vontade de estudar como integrar a narração oral na respetiva componente pedagógica.

Por último, no que respeita aos narradores e especialistas convidados, foi extremamente desafiante ter de resolver, em apenas três dias, o modus faciendi e o confronto com: 1) a ampliação do reportório de contos dos narradores presentes, 2) o trabalho de formação dos jovens in loco e 3) ainda a (re)conceção de todo o Festival Popular. Na realidade, acreditamos que este projeto nos abriu a todos novas perspetivas de atuação no que à narração oral respeita, conseguidas também através de longas discussões e do questionamento do que vimos fazendo e do que poderemos vir a fazer nesta área de promoção da leitura e da cidadania. 


Narradores a almoçar e a refletir.
Com efeito, nunca é demais sublinhar que, para além da extraordinária componente encantatória da narração oral, o domínio da oralidade (como o da escrita) permitem-nos ser mais socialmente ativos, para além de mais lúcidos e mais conscientes em relação a nós próprios e ao mundo que nos rodeia. Reservado, em Portugal e um pouco por todo o mundo, a uma pequena elite, o domínio da oralidade revela-se-nos nas limitações e constrangimentos da nossa democracia. E, no entanto, trata-se apenas de meras técnicas que se aprendem facilmente na infância e na juventude e até mesmo ao longo da vida. 

Como já aqui o afirmámos diversas vezes, o exercício da cidadania requer, por parte de todos e de cada um de nós, a capacidade de contarmos, em público e por escrito, a nossa história e a da nossa comunidade. Afinal, o único modo de de nos tornarmos cidadãos de plenos direitos e deveres e de refletirmos, criticarmos, defendermos e melhorarmos significativamente a vida que vivemos.

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