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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Dos contos e da narração oral I: que personagens, que enredos, que narrativas encantaram os primeiros homens?


«Em busca do fogo das histórias»
reflexão multidisciplinar sobre
os contos primevos




As histórias são como o vento
que vem e volta.
O viajante conta e volta para casa.
O seu principal atributo é a memória,
mas também a versatilidade
Como as histórias, o viajante
 quando regressa já não é o mesmo,
traz consigo um mundo novo.

(XPC, EO, VO)[1]


De há 22 anos a esta parte,  a associação de promoção da leitura SLIJ (Seminário de Literatura Infantil e Juvenil) de Guadalajara, à qual pertenço, organiza uma atividade sistemática de promoção da narração oral, cujo evento mais conhecido é o Maratón de los Cuentos.
Realizado no terceiro fim de semana de junho, no pátio interior do Palácio do Infantado, neste Maratón de 46 horas ininterruptas mais de 1000 contadores de todas as idades, nacionalidades, profissões contam contos, nas mais diferentes línguas vivas e mortas, para um público estimado em ca 15 000 pessoas. Dado o tema e as entidades envolvidas, este ano o Maratón teve uma ainda maior repercussão nos media. A rádio local, Arrebato, que o transmite em direto, registou 12.000 acessos ao longo do Maratón.

A única condição é contar (não ler).



Atividades paralelas
 Animação de rua, conferências, oficinas, espetáculos, feira do livro...


Todos os anos é eleito um tema que é explorado em diferentes vertentes: nos contos narrados, nas exposições temáticas, na discussão teórica e profissional. Em 2013, o tema foi os primeiros contos da humanidade: que personagens, que enredos, que narrativas teriam encantado os primeiros homens?
Este projeto, financiado pela União Europeia (Programa Cultura 2007-2013), envolveu os seguintes parceiros:
  1. Biblioteca de Cologno Monzese (Itália), 
  2. Centre des Arts do Récit (França), 
  3. Living Landscape Project (África do Sul), 
  4. Fundação Atapuerca e o Sistema Atapuerca de la Cultura de la Evolución, 
  5. Universitat Jaume I,
  6. Associação Amigos do Museo de Guadalajara, 
  7. Associação Apremia (Asociación para la recuperación de la memoria internacional audiovisual) e 
  8. Associação Sedic (Sociedad Española de Informacion y Documentacion Científica). 
«Em busca do fogo das histórias» foi o título escolhido pela proposta espanhola de reflexão multidisciplinar sobre este tema e a metodologia adotada a seguinte.

Em abril de 2013 , reuniram-se durante uma semana em Cedeberg, Africa do Sul, os responsáveis e parceiros do projeto e seis narradores sul-africanos e seis europeus que, para tal, selecionaram histórias com base em 6 temas considerados constantes na história da humanidade: a criação do mundo, a morte, o universo, os elementos, os animais e as relações entre sexos.

A metodologia adotada foi a de começar por ouvir em grupo contos muito antigos que procuram reproduzir temas fundamentais para a sobrevivência da nossa espécie, em abrigos e grutas que foram habitados há milhares de anos atrás. A segunda fase consistiu numa reflexão, ao longo de dois dias, sobre este tema a partir de disciplinas diversas: arqueologia do paleolítico, antropologia, linguística, psicanálise junguiana, tradição oral... num esforço coletivo de (re)unir as abordagens experimental e teórica.


1ª. experiência: contar em abrigos das montanhas de Cedeberg, África do Sul

As montanhas Cedegerg têm uma extensão de 50 km norte-sul por 20 km este-oeste, e localizam-se a cerca de 300 km a norte da Cidade do Cabo. Este território é simultaneamente uma reserva natural e cultural e nela se encontram diversas pinturas rupestres em abrigos ao ar livre da autoria de etnia !San. É gerida por Cape Nature (oficialmente, Western Cape Nature Conservation Board) organização governamental responsável pela preservação das áreas selvagens e das reservas naturais públicas na província Western Cape na África do Sul.

Cedeberg landscape.
Abrigo ao ar livre com pinturas rupestres.
Fotografia oficial.
Primeiros debates entre narradores, arqueólogos e etnólogos.

2ª. experiência: contar contos em Atapuerca, Espanha

Em junho, o mesmo grupo, agora mais alargado, voltou a contar essas histórias em Atapuerca, um dos sítios pré-histórico europeus considerados mais antigos. 


Na visita guiada Atapuerca , a  jovem guia foi muito elogiada 
pela forma como contou as  narrativas  documentadas.

Arqueólogos contando histórias uns aos outros 
(John Parkington, à esquerda e Juan Luis Arzuaga , à direita).
Depois, na gruta artificial, que integra este complexo arqueológico, os seis narradores abaixo mencionados contaram-nos os seus contos.


Narradores da esquerda para a direita: Estrella Ortiz, espanhola, Kapilolo Mahongo, bosquímane !shan,Leila Serra, italiana, Maelen winberg, sul-africana, Madosini, shosa, Pedro Espí, espanhol residente na Àfrica do Sul.
Kapilolo, Leila, Marlene, Madosini, Pedro.
Madosini.
Marlene.

3ª. experiência: contar contos na gruta de Los Casares

A terceira experiência de recontrução de narrativas ancestrais foi realizada na gruta de Los casares, presentemente abandonada, mas que regista uma ocupação milenar até tempos muito recentes: o torreão é árabe e foi seguramente abrigo de pastores. Abriga ca 200 gravuras rupestres do que se pensa ser a primeira representação da reprodução humana: cópula, gravidez, parto e vida familiar. Descoberta em 1933, a gruta contém gravuras e algumas pinturas datadas de 30 000 a 25 000 a.C. 

A entrada da gruta localiza-se sob o torreão.
Informação sobre a gruta e apresentação da sessão: J. Parkington e J. M. De Prada Samper
Pedro Espi contando e cantando, acompanhado pelos outros contadores que formam um conjunto de flautas, feitas de tubos de plástico numa oficina ministrada por P.E. sobre instrumentos musicais.
Sessão de contos: Madosini, em pé, contando e tocando um instrumento shosa.

Reflexão e debate teóricos

Na semana seguinte, deu-se então início a dois dias dedicados à reflexão e ao debate em grupo, para os quais se reuniram os seguintes especialistas em pré-história, conto e narração oral [2] :

1. Ben Haggarty (investigador e narrador, autor da bd Mezolith)
2. Blanca Calvo (bibliotecária e membro do SLIJ)
3. Bohdan Ulasin (linguística da Universidade Comenius de Bratislava)
4. Carmen Carlota (aquitecta italiana, especializada em educação pela arte)  
5. Estrella Ortiz (narradora espanhola)
6. Helena Cuesta (narradora espanhola)
7. John Parkington (arqueólogo do Paleolítico)
8. José Manuel de Prada-Samper (etnólogo e compilador de tradições orais)
9.  Kapilolo Mario Mahongo (narrador !san)
10. Lelia Serra (atriz e narradora italiana)
11. Luis C. Carmelo (narrador português)
12. Luis Moro (presidente do SLIJ)
13. Maria de Jesus del Olmo (SEDIC)
14. Marilena Cortesini (Bibliotecária italiana, Biblioteca Cívica de Cologno Montese
15. Marlene Winberg (narradora sul-africana da tradição !san),
16. Michelle Petit (antropóloga especializada em temas de leitura)
17. Pedro Espi (músico e narrador espanhol radicado na África do Sul)
18. Vera Oliveira (Bibliotecária portuguesa da DGLAB[3])
19. Xabier Puente Docampo (escritor). 

O trabalho deste grupo começou pela leitura da síntese das primeiras reflexões retiradas da experiência da reconstrução narrativa do passado em Cedeberg, a saber:
1.       As pinturas de Cedeberg tratam os mesmos temas dos contos da tradição !san, o que sugere que outras pinturas mais antigas se encontrem também  relacionadas com narrativas de época;
2.       No abrigo de Cedeberg a acústica é perfeita e parece que o mesmo sucede em outras grutas pré-históricas, pelo que se pode considerar que os locais elegidos para as pinturas o fossem também para narrativas em voz alta;
3.       As histórias bosquímanes fazem parte integrante da vida desta comunidade. Eram contadas só entre homens, só entre mulheres ou entre mulheres e crianças;
4.       A necessidade de contar e de ouvir histórias é uma das características da nossa espécie.

Passou-se em seguida a uma síntese do ponto da situação dos conhecimentos atuais sobre a linguagem simbólica[4] e a linguagem artística:


A linguagem simbólica
(cronologia breve)

Há 800.000: o homo antecessor (erectus) de Atapuerca anos possuía já o aparelho fonador necessário ao domínio de uma linguagem oral suficientemente articulada, embora rudimentar, para poder ser considerada simbólica;

Há 200.000: os homo sapiens arcaicos detinham um potencial equivalente ao da atualidade, muito embora tenha sido ativado muito depois;

Há 75.000 a.C.: primeiro registo de expressão artística;

Há 40.000 – 35.000 a. C.: primeiros grafismos e expressões nitidamente simbólicos;

Há ca 5000 a. C.: aparecimento da escrita.




A linguagem artística 

Há 76.000 anos: as obras de arte mais antigas são peças de ocre gravadas com desenhos abstratos, contas feitas de búzios (nassarius) e uma utensilagem complexa que sugerem um padrão cognitivo moderno e a existência de linguagem sintática (grutas de Comblos, África do Sul). São contudo muito mais rudimentares do que as encontradas há 40.000 na Europa[5].

Há ca 30.000 anos: regista-se na Europa uma explosão artística, representada na gruta de Chauvet (França): 420 pinturas e gravuras revelam tanta destreza, capacidade de observação e elegância como as de Lascaux ou de Altamira, embora sem as grandes cenas destas, que datam de 15.000 mais tarde.

Um texto, em particular, 
«La cueva de Chauvet», da autoria de John Berger, crítico de arte, romancista, pintor e escritor inglês, constituiu uma proposta de trabalho que levantou algumas pistas sobre a matéria em discussão. Recorde-se que os vestígios encontrados na Gruta de Chauvet, em França, têm sido sistematicamente estudado, são objeto de inúmeros estudos. Werner Herzog escreveu, dirigiu e narrou A caverna dos sonhos perdidos, um documentário com tecnologia 3D que mostra as imagens de arte ruspestre e reúne declarações de diversos cientistas (arqueozoólogos, espeleólogos, antropólogos) responsáveis pela exploração da caverna.


Segundo J. Berger[6], os homens de Chauvet não viviam em grutas. Entravam nas grutas para participar em determinados rituais sobre os quais pouco se sabe.

Talvez entrassem nas grutas para experimentar instantes especiais de equilíbrio perfeito entre o perigo e a sobrevivência, o medo e a sensação de proteção, e para os preservar na memória. Os animais ferozes que pintaram e gravaram não denotam medo, mas sim respeito, fraternidade, intimidade… cada criatura está desenhada a gosto do homem. A pintura não respeita as margens, flui quando é necessário, sobrepõe-se, submerge imagens anteriores e muda sem cessar a escala do que representa.

Como seria então o espaço imaginativo em que viviam? É possível que, para os nómadas, a noção de passado e de futuro se encontrasse subordinada à noção de outra parte. Uma coisa ou um ser que desapareceu ou que se aguarda está oculta em outra parte. Saber esconder-se, camuflar-se, é um requisito básico de sobrevivência. O que despareceu está escondido em outra parte. E os mortos? Também estariam em outra parte?

J. Berger acredita que as pinturas e as gravuras foram elaboradas para que pudessem perdurar e permanecer. Estavam ocultas, longe da visibilidade, de modo a que o que simbolizavam sobrevivesse a todo o visível e fosse, quem sabe, uma promessa de sobrevivência.


De seguida, Jonh Parkington apresentou uma comunicação subordinada ao tema Landscape as a palimpsest of stories:rock paintings, !xun stories, marked ostrich eggshells. Desta comunicação que será posteriormente transcrita, de aqui deixo apenas uma versão abreviada:


«Na África do Sul existem 10.000 sítios com pinturas rupestres. Na gruta de Bomblos, que foi descoberta completamente preservada, encontraram-se gravações em cascas de ovo de avestruz que datam de 60.000 a 100.000 anos; os pigmentos foram datados de há 100.000 anos.

As pinturas rupestres datam de há 20.0000 anos: incluem sempre pessoas e animais, mais pessoas do que animais, além de seres na fronteira entre pessoas e animais, nunca a paisagem em si mesma.




As histórias San não narram as pinturas, mas abordam os mesmos temas. Estas histórias foram recolhidas a partir da tradição oral e do registo escrito no início do século XX por sul-africanos brancos. Algumas podem ser lidas no sítio San Memory House.

A interpretação destas pinturas de seres humanos tem por base o que significa para estas comunidades ser caçador, bem como as diferenças entre sexos e entre classes de idades. Os géneros encontram-se bem definidos: uma figura ou tem pénis ou seios, nunca se regista uma figura de «transição». Os humanos são desenhados de perfil e ocasionalmente de frente.



Caçador.
Os homens são representados vestidos, com utensílios de caça e uma mochila. Não existem pinturas de caçadores a matar antílopes. O confronto representado é o de homens contra homens. O torso do antílope tem a mesma forma das capas-vestuário dos caçadores. Vestir uma pele de antílope é ser um antílope. 




O animal mais presente é o antílope (eland), o maior dos bovinos. O torso é representado em vermelho (ocre) e as pernas em branco, uma convenção generalizada. O antílope representa 300 kg de carne (embora não tenham sido encontrados vestígios de que se comessem muitos antílopes), mas representa também a transição de criança para adulto (conseguir caçar um antílope). 


As mulheres não matam antílopes. Mas a menstruação coloca-as à parte significando metaforicamente que matavam um animal de grande porte que não o antílope. 

O homem mata e come antílopes. Quando as mulheres menstruam, dançam com as mais velhas. Os homens jovens não podem estar 
presentes, mas os homens mais velhos podem, representando antílopes com chifres na cabeça.




O que significa ser mulher nesta comunidade? 2/3 da alimentação são providenciados pelas mulheres, o que não se encontra quase nunca representado nas pinturas. Caçar é caçar grandes animais. As mulheres, desenhadas com as pernas abertas, representam a menstruação ou o parto, com um braço para cima e outro para baixo.



Por que há tantos elefantes desenhados? E com crias? Os elefantes não são representados a serem caçados. As manadas de elefantes são comunidades semelhantes às humanas e assim são representadas socialmente: mães-filhos em posições defensivas, por exemplo e desenhos de elefantes e pessoas, dançando e batendo palmas. 

*    *    *

As primeiras pinturas e gravações humanas apresentam-nos apenas marcas diversas: pontos e linhas cruzadas, por exemplo, mas não seres vivos.


Diepkloof Rock Shelter.
Diepkloof Rock Shelter[7] é uma grande caverna situada em Western Cape, na África do Sul, na qual foram encontradas as primeiras evidências da utilização humana de símbolos, sob a forma de padrões gravados em cascas de ovos de avestruz, supõe-se que usados como contentores portáteis de água (65.000-75.000 anos). Os padrões formam linhas cruzadas com ângulos retos ou oblíquos. Aí também foram encontrados artefactos diversos, ossos e muito poucos restos de seres humanos, mas modernos, numa época em que na Europa apenas viviam neandertais.

Padrões desenhados em casca de ovos de avestruz, Diepkloof.
Estes recipientes apresentam marcas codificadas, mas também pessoais o que as individualizam. Nesta época e neste espaço, as pessoas começavam a viver periodicamente em grutas. As conchas perfuradas como contas de colar, os bifaces, as gravuras em ocre demarcavam as grutas. Comiam conchas e alimentos marinhos, fonte de aminoácidos essenciais. No seu conjunto terá sido neste ambiente que se desenvolveu a capacidade de organização mental que lhes terá permitido superar os neandertais.

Bloco de ocre gravado, Bomblos.
Terá sido também esta capacidade que lhes possibilitou contar histórias, outra  manifestação da referida capacidade mental adquirida, e antecipar o futuro. O estudo destas comunidades revela-nos as seguintes características e relações:
Memória, marcação e paisagem;
Relações sociais renegociadas;
Utilização integrada dos recursos;
Estabelecimento de relações interpessoais e espaciais.
Quando surgiu a capacidade de antecipação? Como interrogar os vestígios arqueológicos? No domínio da linguagem equivalerá, entre outras competências, ao domínio das dicotomias:

 Passado – Futuro      Aqui – Ali

*    *    *


Ben Hagarthy tomou depois a palavra para explicar o processo criação de Mezolith, um livro de banda desenhada de que foi autor do texto, e que procurou ser uma experiência de reconstrução narrativa do passado préhistórico.

Ben Hagarthy, à esquerda (texto) com Adam Brockbank (ilustrações).
Baseada numa investigação cuidada, MeZolith é uma reconstrução conjetural da vida de uma pequena comunidade de há 10.000 anos na costa oeste da bacia do Mar do Norte e fala de um ano na vida de um adolescente. De modo a mostrar como a mitologia e a metáfora podem ter tido um papel importante no quotidiano dos nossos antepassados, os autores apresentam as aventuras de Poika, o adolescente, numa matriz vívida que mescla histórias fantásticas, sonhos e pesadelos, abolindo as fronteiras entre o mundo real e o imaginário.


Ficção
Poika deixando a sua marca numa gruta (técnica do sopro de pigmentos).

Realidade
Imagens da gruta de Chauvet.


Ficção
Ser benéfico de Mezolith.
Realidade
Venus de Hohle FelsAlemanha

À medida que este trabalho progredia, tornou-se para os autores cada vez mais claro que uma significativa parte dos temas das histórias lendas e narrativas mais poderosas, que persistem, na memória coletiva e no nosso subconsciente, são muito provavelmente muito mais antigas do que inicialmente se pensara.

WORKSHOP

Em grupo, os diferentes especialistas reunidos para este worshop pronunciaram-se sobre o tema, procurando, encontrar elos de ligação entre as várias disciplinas e áreas do saber de cada um, bem como as reconstruções narrativas do passado realizadas em Atapuerca e Los Casares.

Como chegar às primeiras narrativas humanas?

Partindo do princípio de que a presença do passado se manifesta no presente, como um eco, é até certo ponto possível saber até onde e quando remonta uma história (BH).
As primeiras histórias deveriam ter uma sintaxe rudimentar e recorrer a onomatopeias, à mímica e ao ritmo (EO). As primeiras histórias devem ter sido recriações, o que também permite inventar, com gestos e palavras (JP). As histórias mais antigas permanecem em anedotas, provérbios, ditos. São concisas e contêm conselhos de vida (XPC).
A ligação entre pinturas rupestres e textos ancestrais deve ser estudada. As gravuras com 2000 anos da Austrália são regularmente retocadas e acrescentadas pelos aborígenes, como as histórias que contamos (JP). Significativamente, estes afirmam que não são eles que as retocam, mas sim as suas mãos…

Temas


No que respeita aos temas, podemos seguramente começar pelo que seria então necessário à vida: comida, roupa, abrigo. A realização de estudos comparados de sociedades de caçadores-recolectores em climas idênticos teria grande pertinência e está por explorar. A fauna, fonte de alimento, seria sem dúvida um dos temas, que alguns especialistas colocam também desta forma: «se matamos os animais, será que estes voltarão?» 



A noção de outro mundo existente , mas inacessível, perpassa no imaginário do home do paleolítico: o que acontece quando os animais passam para lá da linha do horizonte (migrações): para onde vão? Que mundo é esse (BH)? Se os animais não voltarem, o que fizemos de mal?»
As histórias viajam mais do que as pessoas, tanto no espaço, como no tempo. Algumas histórias remontam provavelmente à pré-história. Como a mulher cisne, ou a mulher foca dos Inuit, as quais se libertam das suas penas e das suas peles para se transformarem em mulheres muito belas, mas diferentes das outras, que os homens desejam e sequestram. Estes seres pertencem a outro mundo e as relações entre os dois mundos são difíceis e perigosas (VO).


As histórias de tabus e as histórias «exemplares» são também outro tema (VO).




Histórias de tabus, como a da proibição de relações sexuais entre humanos e animais, habitantes de universos incompatíveis...

Histórias «exemplares» que ensinam a olhar com desconfiança seres de algum modo estranhos, estrangeiros, que disfarçados de seres humanos representam o mal.

A criação do mundo, outro tema, é representada pelo ovo, pela emersão das águas, pelo corpo despedaçado e espalhado pelo mundo.
Mais do que deus ou deuses, é a representação da mãe que dá a que tem mais força. A mãe do outro mundo, que não é a mãe-terra que surge com a agricultura (BH). A origem etimológica mais antiga do nome DEUS é o que dá tudo, BHAG, do indo-europeu, bhágah, do sãnscrito, bada-, do avéstico (BU)[8] .

Vénus de Dolní Vestonice e Vénus de Willendorf: a mãe que dá?

Como chegar aos contos primevos...

Pode datar-se a origem da linguagem, mas não a da narração, para o qual será antes do mais necessário definir-se concretamente o que é narração: anedotas, casos, narrativas épicas, narrativas iniciáticas, etc. (BU).
Por outro lado, seria ainda necessário ter em conta outras formas de comunicação cuja validade se perde unas sociedades desenvolvidas: pressentimentos, intuições, sonhos, alucinações e visões, transes. As histórias não são apenas as palavras de uma narrativa (BH).

A linguagem humana e a narração oral obrigam à existência de condições físicas e psicológicas: a laringe e as cordas vocais permitem a pronúncia de fonemas com combinações ilimitadas, a memória complexa que permite a acumulação de conhecimento: usar utensílios para fazer utensílios, a capacidade de abstração e de imitação, bem como o estabelecimento de convenções coletivas, que mesmo assim não explicam tudo.

A divisão do trabalho entre sexos implica, por sua vez, a capacidade de negociar, de coordenar através de atos verbais (promessas, ordens), daí que o imperativo tenha sido um dos primeiros modos verbais a ser usado.

A utilização de palavras e de expressões desligadas do contexto, ou seja, a deslocação da referência na transmissão de conhecimentos, como falar de caça em casa ou a conservação de utensílios para outros momentos, bem como o estabelecimento de convenções que nos permitem transmitir informação e falar do que não conhecemos, implicam a capacidade de conceber mundos imaginários.
As abordagens interdisciplinares são fundamentais: por exemplo, segundo a linguística pragmática, um dos objetivos da narração é a coesão do grupo, já a psicolinguística estuda a forma como reagimos perante uma história (BU).

Por que contamos?

Contamos porque alguém nos escuta, porque há um nós. Para quem narramos?  A narração tem uma função utilitária, mas também a de passatempo, de passar bem o tempo. Provocando o aumento das endorfinas e dos opiáceos naturais,  que geram o bem-estar, a empatia e a coesão do grupo, ensinando a prática da não violência e da não agressividade. Mas também contamos para nós próprios, para nos entermos e ao mundo que nos rodeia e para atribuirmos um sentido à vida (VO). As histórias transmitem a coesão e a cosmogonia do grupo, para a afirmação do eu e o reforço do nós (a soma dos eus, o grupo) (XPC).

Contamos para criar um sistema ético de valores numa comunidade. A narração está tão intimamente ligada à sobrevivência da nossa espécie (XPC), que é essencial para a nossa sobrevivência, para a coesão do grupo e para a ultrapassagem das crises. As histórias ensinam-nos o que podemos e o que não podemos fazer, são uma regurgitação da experiência vivida: o canibalismo, o parricídio e o infanticídio, o incesto e a violação, a guerra e o ódio são temas que encontramos em todos os mitos fundadores (MP). A África do Sul dos nossos dias é o exemplo que as histórias servem para superar crises, servem para a redenção e a busca de perdão, são uma terapia (que também apela a um contexto musical (PE)). As histórias também são um processo de cura (MW). Mais do que apenas ensinar, as histórias servem para curar e para reconfortar (EO).

Ignarus significa ignorante em latim, e narrus, o que narra, o que sabe, o que comunica a memória (XPC).O que, se para os países desenvolvidos pode parecer algo fantasioso, é contudo uma certeza para o povo !san: as histórias !san fazem parte integrante das suas raízes e da sua identidade. (KMM).



[1] Esta síntese assinala, com as respetivas iniciais, os nomes dos principais contributos dos especialistas aqui referidos.
[2] Guadalajara, 12 e 23 de junho de 2013
[3] Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas, Secretaria de Estado da Cultura de Portugal.
[4] «Evolución humana» in http://es.wikipedia.org/wiki/Evoluci%C3%B3n_humana
[5] «Cueva de Blombos» in http://es.wikipedia.org/wiki/Cueva_de_Blombos 
[6] «La cueva de Chauvet», El Pais, 2002
[7] In http://en.wikipedia.org/wiki/Diepkloof_Rock_Shelter
[8] In http://www.rubensromanelli.net/nomesdeus.html

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